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UTOPIA

por avidarimar, em 24.06.17

Se eu tivesse a certeza de quem sou

Talvez me pudesse conhecer um pouco mais

E saber porque ando por aqui

E para perceber o que posso vir a ser

Pois o acaso apenas conduz a nenhures

Mas não posso querer ser um outro eu

Só para me sentir cómodo

E não ser esse eu

Que não sei quem é

E o desconhecido é o prelúdio do abismo

 

Sei que a luta é a de um rio a desbravar caminho

E sempre que acaba o ciclo

A mesma água volta a calcorrear o mesmo percurso

E o sentimento é de quem não reúne simpatias

Certamente até de incompreendido

Mas a crença por algo mais superior

Retira-nos até a lucidez

 

Nos bancos de jardim do meu quarto

Sentam-se esse outro eu

Que desconheço

Com os seus comparsas de rotina

E todos desfilam silenciosos na sombra

Incluindo esse eu

Que olha em redor

E vê através da janela

Os transeuntes que passam céleres pela rua

Apinhada de coisas tão irreais

Como se a realidade fosse uma verdade única

E se a verdade se transformasse

Numa única e pura realidade

 

A verdade é às vezes real

Porque a ficção é um amontoado

De imagens que queremos engolir

Mas não faz da realidade a única verdade a ingerir

 

Cheira a febris e pútridas conversas de faz de conta

Latejam realidades arrepiantes e assustadoras

E o amargo que regela a garganta

E a torna seca como rocha

Como se trampa deslizasse até ao estômago

 

Verdadeiramente possível mas improvável

É o sonho do mundo com um pensamento lúcido

Transparente lógico e emotivo

 

Em cada passo de cada vagabundo

Solta-se a amarra duma palavra muda

Trémula e prenha de vácuo

E o diálogo que se suporia acolhedor e envolvente

É uma vozearia de sons esmagados pelos tacões

E um vazio de sentido e senso

Uma algazarra de absurdos

Um matraquear de monossílabos metálicos constantes

E a confusão gerada naquela ordem

Que ninguém conhece

Nem como funciona

 

As palavras resvalam húmidas

Como as paredes das cavernas

E alojam-se como lama

No chão escorregadio

Deste charco

Labirinto imundo

Que é a urbanidade selvagem e impiedosa

E o meu eu transforma-se no umbigo do mundo

 

Realisticamente possível

Mas dramaticamente improvável

É o pensamento se metamorfosear

Na realidade mais lírica e louca

De que o humano se consegue desprender

E continuar a lutar por ideais

E só por ideais

Apenas assistido pela metafísica

Ambígua e pobre

Como se Lázaro uma força divina

Que nos mantém ingénuos e puros

 

Matematicamente possível

Mas vergonhosamente improvável

É qu se cumpra

Que a sorte se pode buscar em qualquer quartilho da roleta

E que ela se queda

Sempre de igual modo do lado da fantasia

Como se o mundo material e físico

Não fosse comandado pelo campo magnético

Que faz  parar a bola da sorte

Sempre no mesmo quadrante

 

Contabilisticamente possível

Mas tristemente improvável

É a justiça que se diz cega

Não levante a venda

Para saber se este eu no banco dos réus

Não é um outro bafejado

Que mereça uma cega ajudinha

Por ser “gente respeitável e boa”

À luz da justiça criada pelo rasteiro humano

 

Irremediavelmente improvável

É este eu sentir

Que vale a pena não se deixar abater

Nesta luta desigual

E no entanto

Continuar a acreditar

Que vale a pena lutar

Pra mudar o imutável mundo manipulado.

 

 

LUMAVITO

20170624

CXC

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publicado às 23:01



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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