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TEMPO DE ORAR

por avidarimar, em 29.05.15

OU MAIS UM EVANGELHO

 

Em tempo de recolhimento

Urge elevar as nossas preces

E fazê-las chegar ao céu

 

Ergo o olhar

E com estrondo ensurdecedor

Vejo passar um A 320

Carregadinho de tanta gente

Esses sim

Estão bem mais perto dele

Ouvem o sermão

De S Passos aos seus discípulos

Um texto lindo

Em português vernáculo escorreito

Pregado no púlpito de S Bento

Não é preciso programa

E corre de improviso

Importa manter as hostes

Com motivo

E mobilizadas ao primeiro aviso

 

Por cá

As minhas orações

Não abrangem liturgia tão refinada

E a divina inspiração não me invade

Chego até a ser tentado

A recorrer a “pais-nossos bravos”

Dos que

Quando a exposição é tanta

O desgaste acentuado

E a paciência se esgota

Em vez de vapores suaves imaculados

Elevam-se densas nuvens

De um fumo escuro

Impregnado de partículas suspensas

Que são libertadas

E contribuem para a destruição

Da camada do ozono

 

Noutros momentos

Sinto necessidade de me confessar

E declamo o que a consciência

Maltratada mas firme

Me impele a dizer

 

Frente à grade do confessionário

Ao representante dele

“Tive vontade

Muita vontade mesmo

Cheguei a juntar um arsenal bélico

Conjeturei todo o plano

De maltratar os acólitos da Buenos Aires

E de linchar alguns do Caldas

É certo contive-me

Faltou-me a coragem

Mas isso passou-me por esta cabeça”

 

Por detrás da grade

Daquele breu tenebroso

Rasgando o silêncio assustador

Brotou uma voz grossa

Tipo trator a lavrar a terra

Lenta e medida

 

“Ora

Ora

Ora bem

Pois é    Irmão

As tentações são muitas

Os perigos imensos

Mas não lhes podemos ceder espaço

Devemos ser mais fortes

Devemos essa obediência

Ao nosso ser maior

Magnânimo

Que está lá em cima

E eu

Seu representante

Neste reino terreno

Eu próprio

Senti o chamamento arrebatador

De os lixar

Aos mesmos que tu

E alguns

Ficaram lixados comigo

 

Irmão

Em nome da humildade

Reconhecendo a falta de eficácia

Ou se mata ou se morre

Por não teres seguido

O que te ditou a consciência

Até ao que ela te obrigava

Vais oferecer uma vela

Da tua altura

À padroeira da freguesia

A senhora dos entalados”

 

Confissão feita

Sentença lida

Penitência por cumprir

O cheiro da cera ardida

Dá-me comichões graves nas narinas

E vê-la arder acima do meu nariz

Arrepia-me

E é natural que me queime as pestanas

 

Em vez disso

Proponho-me sofrer um verdadeiro vexame

Importa ouvir

O que o prior da capela de S Bento

Inflige nos crentes indefesos

Estabeleço ligação através

Da interioridade espiritual

E a chamada

De valor acrescentado

Estabelece o diálogo

De surdos

Sem quaisquer rodeios

A cândida voz gravada

“Está a ligar para o gabinete do omnipotente

Mais que tudo

Residente de S Bento”

 

Ligeira pausa

Seguida dum menos ligeiro ruído

De quem masca umas pevides

E pedacinhos de amendoins

Que sobraram entre dentes

Percebendo-se o escorrer

Turbulenta queda garganta abaixo

Demora a engolir

“Decerto que é para continuar

A senda do emagrecimento

Iniciada em dois mil e onze

Importa acreditar

Não há outro caminho

É preciso confiança

Se quiser melhor

Vá trabalhar pró Canadá

Ou pra França”

 

Como é meu timbre

E não gostando do responso

Sem nada lhe ter perguntado

Já fora de mim

Em tom irritado

Respondi

Que aquela consciência má

Daqui se vá

E que vá trabalhar pra Massamá

Ou se achar que ainda é perto

Vá a nado

E atravesse o canal do Panamá

E já do outro lado

Desça rápido o Pacífico

Passe ao largo da costa do Chile

Mais abaixo

Quilómetros mais de quatro mil

Se refresque no Antártico

De braços abertos

Por lá permaneça

Sem que nada aconteça

Verticalmente estático

 

Não estava á espera

Não fora avisado

Só agora entendi

Pensava eu de quarenta dias

É uma quaresma de quatro anos

Não há penitência que nos habilite

Definhados pelo jejum

Sulcos sangrados da abstinência

Já não tenho mais paciência

Crucificados é de mais

Estamos todos em morte lenta

Nunca mais chega a ressurreição

E o Judas do irrevogável

O patrono das causas perdidas

Ainda não se enforcou

Só se o Mateus se enganou

 

Aguarda a madrugada

Perto do jardim das oliveiras

Por entre perdidos cavacos

 

Aí próximo

No templo de Belém

Jaz moribundo

Um Pilatos

Não larga a bacia das mãos

Ora assobiando pró lado

Ora pedindo que nos juntemos em comunhão

Que este reino que ele quer divino

Bem precisa

Governo e oposição

Para que a sua ceita

Se perpetue no poder

Mesmo que ele apodreça

A olhar o Tejo

Agarrado à cabeça

 

Mas julgo estarmos

No advento da sua saída

Há um espirito santo a pairar

Que me diz que talvez

Lá por alturas do mês três

Deste próximo ano

Ele se evaporará

Subindo ao céu

Em rarefação

E perpetuar-se-á no vazio

Pelo eclipse total e absoluto

Desaparecendo de vez

E neste mundo agora de trevas

Para sempre brilhará

Nova luz em formação

Qual choque de cometas

Em pleno jardim do rato

 

Invoquemos

E demos graças ao constitucional

Por não permitirem o estrago

Com a TSU

Imploremos a todos os votantes

Que não se deixem embalar

Na treta do superior interesse da nação

 

Intercedo ainda

Junto do altíssimo

Para que esta mesma nação

Deixe de ser mera corja

Se quiserem

Meia dúzia de iluminados

Na detenção de todos os bens terrenos

Pois essa coisa de haver um só

São quatro ou cinco

Donos disto tudo

 

E que esse tudo

Mas não é tudinho

Passe prás mãos da população

Já que

Segundo nos rezam

Somos todos filhos do mesmo pai

Acho estranho mas tá bem

 

No fervor tão elevado das minhas preces

Junto a necessidade premente

De utilizar todo o ferodo do mundo

Para travar a loucura das privatizações

Antes que cheguem as eleições

 

Não posso esquecer nas minhas orações

O pedido ao ser celestial

Para que os políticos da república

Não sejam mero sucedâneo

E o perpetuar dos mesmos clãs

Ao longo de séculos

Mais parecendo a monarquia

Vivendo do poder dinástico

 

Eu sei senhor

Que oração já vai longa

E já estás farto de me ouvir

E a pedir

Nunca ninguém tirou o pé da lama

Eu sei senhor

Que já parece uma ladainha

Com TE-DEUM e missa cantarolada

Ao som das quatro estações

Vivaldi em outras versões

E que recebes pedidos de todos os lados

Mas também sei

senhor

Que tu ajudas os mais aflitos

E tens presente

Uma pitada de justiça

Para quem mais precisa

Mas não de quem mais grita

 

Senhor

Como vedes

Não vos peço nada de material

Palpável

É tudo da mais pura espiritualidade

A começar pela reformazita

Bem jeitosa

Vinha mesmo a calhar

Bendito sejais vós

Que eu cá me fico

Aguardando a preferência dos teus favores

 

Tu

Ser omnipotente

O criador

Autor de um mundo perfeito

Os humanos é que o estragam

Com a tua infinita sabedoria

Puseste o teu filho Jorge em Benfica

O irmão dele é que não gostou muito

Da brincadeira

Por causa dos outros foi crucificado

Andou-se ele a matar

Em nome do pai

Para agora o Jorge

Ter tudo facilitado

E ser ainda o preferido

Até em Alvalade

 

Eu dou graças a ti

Pois foi claramente

Obra tua

A conquista do bi campeonato

E também sei

Sinto-o

Que vais dar uma ajudinha

Na conquista da taça da liga

 

Tu és o justo

Sabeis bem

Porque falo destas coisas

O futebol é o ópio do povo

Mas apenas para consumo interno

Já que temos os cofres vazios

Não

Não estranhes a expressão

Não é só de espírito forte

Que a vida humilde se faz

Também dá jeito alguma comida

Já agora uma pinguita

E se houver qualquer coisita

Que facilmente nos leve às nuvens

A alma sente-se bem

 

Tu próprio

Pelos menos Contaram-me

Que também tens um ligeiro vicio

E eu não quero acreditar que o seja

Disseram-me que tens que meter o dedo

Em todo lado

Vá-se lá saber porquê

Eu acho que se trata mais de um hábito

Adquirido com o passar dos tempos

E lá que é capaz de resolver

algumas carências

Lá isso é capaz

E uma mulher faz muita falta

 

Sabeis melhor que ninguém

Que este povo

Na sua santa

E estúpida ignorância

Revendo-se nos exemplos de sucesso

Dos heróis do pontapé na bola

Atingem o regozijo

E o orgasmo mental

Como se eles próprios

Heróis fossem

 

Tens junto a ti

O primeiro grande exemplo

Sim…

Sim…

Não vale a pena

Esbugalhares os olhos de espanto

Sim        o Eusébio da Silva

Viajou diretamente da catedral

Para o espaço celestial

em Janeiro do passado ano

já lhe reservaram uma suite

ao lado da Amália

já que ele gostava deste fado

Para não falar dos tremoços

 

O quê?

Não está contigo?

Ele que tanto se esforçou

Tantas vezes que jogou injetado

E tu não o acolheste

No teu reino?

Ele bebia?

Bem o avisaram para não se meter com o escocês

Más companhias… é o que dá

Mesmo assim

Merecia um pouco mais

E tu bem o podias ter ajudado

 

Repara

Aquele outro prodígio

O outro que já foi o melhor

Conhecido mundialmente

Um predestinado dos cromos

Aquele que concorreu à fífia

Pois…    esse mesmo

O fruto da figueira

Entrou noutras galáxias

Corre mundo

Até foi visto uma manhã

No parque dos tagus

Ou lá o que é

Oremos para que ele se mantenha

Sempre certinho

No bom caminho

E em belas companhias

Não… não…

Esse está preso

Mas é inocente

E lá por se terem encontrado

O que importa pró caso?

Só más línguas

O quê?

Não quero acreditar

Estás mesmo feitinho com os outros

São todos o mesmo

E eu a pensar

Que ainda se podia confiar em alguém

Até tu…

 

Pronto…

Vamos mudar de tema

Pois esta conversa não ajuda

Eu sei

Tu és o justo

Mas também és o artista

As tuas mãos são perfeitas

E hábeis

 

Fizeste o céu azul cintilante

Onde as nuvens se espraiam

Levando a água

A quem precisa

 

Eu sei

Não é da tua responsabilidade

Algumas enxurradas

Inundações

Que acontecem

Aliás não foste tu que criaste

O sistema de descarga

Do autoclismo

 

Fizeste o mar

Onde os grandes navios se deslocam

Levando comida a quem precisa

Os naufrágios não são obra tua

Pois não és tu que os pilotas

 

Fizeste o sol que nos ilumina

E é a fonte de vida

Da nossa galáxia

Não podes ser responsabilizado

Pelos melanomas

Cada vez mais frequentes

Os parvos e os gentios

É que se expõem demais

 

Criaste o homem à tua imagem

A partir do barro

Qual José Franco

Em Mafra

 

Mas é aqui que se adensa

Uma dúvida

Não sei se é um erro de conceção

Ou se se trata de mais uma falha humana

Não investiguei o necessário

Para que pudesse perceber este facto

 

De todos os povos por ti criados

E tu soubeste colocar-nos

Junto à praia

Mas nestes

A testosterona não mora

No local que é comum

Nós sabemos qual

Não… não…

Não é esse

Está sempre na ponta da língua

Só depois do ato

É que a engole

Tás a var a figura dos meninos

Ajuda-me a perceber

Esta existência

Oremos por eles

Pois deste modo

A natalidade diminuirá

Só tu concederás

A nossa redenção

 

LUMAVITO

28/05/2015

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publicado às 00:25



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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