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SEMENTES DE ABRIL

por avidarimar, em 14.04.15

Sentado              esquiço uma enxada

Para cavar umas palavas              enterroadas

Assisto ao nascer da alvorada

Aguardo a manhã fresca da horta

Para regar a semente do poema

 

Lanço o adubo na terra austera                da dor enquistada

Sacho a página engelhada da sebenta

Queimada pela torreira do sol

Aleiro as ideias perfiladas do momento

 

Apoio-me no calheiro sedento

Como uma bucha            De acentos tónicos

E pétalas de rosa             que guardei na lapela

Bebo água gelada           do poço da inspiração

E aguardo fixamente     o despontar dos acontecimentos

 

Hoje é Abril

E na horta           florescem as cores duma revolta

Corro a Santarém            espero paciente

Ver sair os carros de combate                   e os soldados

Ver brotar nas armas o poema

Com o cravo ataviado                   no metálico negro da espingarda

A arma que conquistou a liberdade

 

Abril é hoje

É sangue que corre nas veias de quem sonha

Abril é o voo rasante da gaivota

Que ecoa na Praça do Comércio

É ave veloz modo picado

Subiu ao Carmo                               Ver partir a ditadura

 

Abril é ponto de exclamação

Da coragem de Salgueiro Maia

É o grito que corre nas gargantas sequiosas

Abril é o jardim florido da esperança

Abril cresceu e é adulto

 

Querem-no matar          Sem que ninguém note

Basta não o tratar

Recorrendo à ideia apregoada

De que a água não chega a todo lado

Dizem que Abril se celebra só na rua

E não na casa da democracia

Por mim              vou regá-lo todos os dias

 

Para os que não o viram nascer

Nem viveram os traços do medo

Não sentiram a dor profunda    o estado de miserável pobreza

Para os que não souberam as marcas

E os nódulos da ignorância

Foram quarenta e dois por cento de analfabetos

A cultura ao nível de lixo

Como classificação fidedigna     de agências de Rating

 

A saúde em estado mórbido

Só acessível a meia dúzia             dos donos do país

Para a gentalha                                comprimidos para a s dores e febre

Quando muito  quando cadavéricos

Umas chapas aos pulmões

 

Aos que não sentiram na carne

Na alma de quem não se verga

Aos que hoje sentem outros idênticos

Como se fossem os mesmos sintomas

Os tempos não são os mesmos

Mas os processos não moram distantes

A esses                                eu hei de cantar

Não calo o aviso

Que para chegar a um pequeno ditador

Bastar dar poder a um remediado

Coelho renascido

 

Aos que agora se sentem injustiçados

E oportunidade é emigrar

Direi que vale a pena parar

E perceber

Que compensa saber Abril

Sentir a sua origem        conhecer a sua espécie

Alimentá-lo

Fonte de inspiração pra muitos

A ele

Todos devemos a liberdade

 

 

150411 IMG_0004.JPG 

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publicado às 23:04



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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