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PAIXÃO HISTÓRICA

por avidarimar, em 12.04.15

Tenho uma namorada

Graciosa, esbelta, sábia

Dormi esta noite com ela

Segredou-me que me ama

É gente de espécie daquela

Nos dá sofrer, mas clama

Que sofrer também é paixão

Paixão na dor, no viver

Paixão em tudo o que é ser

A dor arde e cura

A febre da minha loucura

Dor ardente que me consome

Dor da minha ilusão

Que falar com gente satura

 

Palavra mais palavra

Tenho uma namorada

Com novecentos anos

De história

É grata, fiel, sábia

Conhece os filhos da mãe

Que são seus filhos também

 

Já pariu vezes   muitas

Que o céu, para tanto

Estrelas não tem

São filhos deste, daquele

Filhos do além

Daqui e doutras paragens

Habituou-se a contá-los

Entre ramos, as folhagens

Que a floresta, ao entardecer, contém

 

São flores do matagal

Tal como as são do jardim

Lírios, acácias, cravos, jardineiras

Peças soltas da minha jarra

Eu não choro por mim

Meu canto de emoções

Das rosas, sorridentes botões

Para outros, coisas inteiras

E dispensáveis, sem valor, descartáveis

A minha namorada tem novecentos

E tem coisas inestimáveis

 

A minha amada namorada

Namora com milhões

De gente como eu, e tu, igual a ele

Não é prostituta de nome

Alma cheia de paixão

Tem relações com todos

Servos e amos, sem e com fome

A minha namorada de novecentos anos

 

Ar grave tem aos pés

Por trás dos montes, farta cabeleira

Tem nos braços o Sado, e em Aveiro

Na ria, outra alegria

Cabeça, questão estrutural

Aqui e noutros locais

Nem sempre para todos, usual

Olhos brilhantes no Douro

No Ribatejo do estômago, o touro

Da garra, da força, de moer

A fartança

No choupal a esperança

E a certeza que, só beleza cansa

Intestino delgado

Mirem o Zêzere

Que desemboca no grosso Tejo

Longos vales percorridos

Entre ais e gemidos

Espraia seu cantarolar

Vai desembocar bem além

Para lá de Santarém

Pois é

Estão a ver a figura

Seja ela mole ou dura

Que, se de engolir complicado

Bem perto de Belém

Não se afigura desajustado

 

Além Tejo as pernas e coxas

Gémeos musculados

As emoções nada frouxas

Umbigo não encontrei

Coração como estrela

Palpitante e bem alta

Farta brisa no ar

Apetece por ali ficar

Afagar tão forte motor

Deste cantinho olhar

Para o olhar profundo do mar

Que nosso é

Até alguém do tabuleiro roubar

 

Foi neste mar

Que fui buscar ouvidos

Tão sentidos, magoados

De discursos que correm na praça

Da governança

Disse-me ela:

Não lhes dês ouvidos

Querem-nos ver sentidos

Haja gente de raça

Que faça ouvidos de mercador

Não mostres ar sofrido

Eles aproveitam nossa dor

 

Perguntar-me-ão:

Vagina, ela não tem?

Tem….. tem!…..

Um pouco por toda a parte

Tal é a dita sorte

De parir um qualquer

No lugar que ela deseja

Mas ela sabe também

Que vai despejar entre são bento e belém

Os outros filhos da mãe

 

Seios, qual quê

Estão no meio do atlântico

Flutuam despidos pela brisa do mar

Tal pregador romântico

São fortes e robustos

De pequeninos todos mamam

Mas à luz da vela

Ou candeia apagada

Tanta passada sem som

Outros graúdos mamam dela

Pelos vistos, o leite é bom

 

Símbolos, mais que todas as medalhas

Todos os combatentes de guerra

Que tal peito encerra

Dizê-los todos

Não tenho saber

Lembrando alguns

Sem desprimor para os outros

Pois é de símbolos que cumpre enaltecer:

 

Aristides de Sousa Mendes

Alexandre Herculano

Geraldo sem Pavor,

Humberto Delgado,

D. Afonso Henriques

Pedro Hispano

Sobrinho Simões

Zé do Telhado,

Vieira da Silva

Vasco da Gama,

Afonso de Albuquerque

Bocage

António Silva

Elias Garcia

Ary dos Santos

Prata Soares

Maria da Fonte

Fontes Pereira de Melo

Fernão Mendes Pinto

Gago Coutinho

Carlos Lopes

António Teixeira Rebelo

Egas Moniz,

Joaquim Agostinho

Nuno Álvares Pereira

Maria João Pires

Salgueiro Maia

Eça de Queiroz

Miguel Torga

Almada Negreiros

Siza Vieira

Fernão de Magalhães,

Fernando Lopes Graça

Luís de Camões

Zeca Afonso

Grândola,

Fernando Pessoa

Damião de Góis

António Lobo Antunes

Rosa Mota

Paula Rego

Almeida Garrett

Francisco Lázaro

Viriato

Gentil Martins

Sacadura Cabral

Sousa Martins

Miguel Corte Real

MARIZA

João Garcia

Santo António

Padeira de Aljubarrota

Carolina Beatriz Ângelo

Edgar Cardoso

Catarina Eufémia,

Gil Vicente

Natália Correia

Bartolomeu Dias

Alves Barbosa

A Portuguesa

Eusébio Silva Ferreira

A BANDEIRA

 

 

Olhei para a minha namorada

Que tinha muitos anos

Não a senti cansada

Tantos nomes, mas tão poucos

Da sua lista elaborada

Vi-a calma, tranquila

Sem rancor

É tal o sentimento de perseverança

Temperança

Solidez no falar, complacência no olhar

Humildade no saber

São estes alguns dos atributos

Que dela permanente, me enamoram

Quais animais astutos

Esperam baixos, o momento

De captar no tempo

Sinais ao contrário do vento

E a minha namorada

Chamou-me à atenção

Não esqueças os outros

 

A minha namorada é jovem

Jovem de novecentos

Dorme com todos na cama

Gente que a ama

Gente que não ama

Nunca saberá amar

Partilhar é preciso

Entrega até mais não haver

Ocioso, ficarás pobre

Não vivas só de materiais proveitos

Para teres caracter, ser nobre

 

À minha namorada inteligente

Eu vi abordagens loucas

Prometerem-lhe o céu e a terra

Tretas de quem berra

Vocifera, urdindo tantas patranhas

A nossa namorada sempre soube

Quem é seu

Quem tolera

Não tolera, não

Quem mais barriga tem que olho

Mais conversa que razão

Areia só atira, para a vista

De quem engana

Não está avisado, que resista

 

A minha namorada de

Novecentos anos

Viajou por montes

E vales rasgados

Desceu rio, foi por mares

Agora já muito navegados

Foi além deste cantinho

Procurou todas as sortes

Viu ao largo, esvoaçando

Uns Açores, adornou forte Madeira

Mais tarde, do alto das ameias

Alguém gritou:

Verde Cabo para São Tomé

Qual pântano da Guiné

A Angola um saltinho

Qual onda que pique

Estes mares não resistem

Virou costas, celebrou com tinto vinho

Foi aos camarões com fresco verde branco

A Moçambique

Às especiarias mais um salto

Qual forte cravinho

Não sendo uso, abastança

Ali viu sustento farto

Com primor

E quem descobre uma dúzia

Descobre mil

Só parou em Timor

Noutra rota diferente, os brasis

A namorada descobrir, os quis!

Em cada um deixou marcas

Não vai o tempo apagar

Saber, parecer, língua

Dignidade na luta frontal

Quem quer viver que resista

Ao lado fácil e formal

Do que simples é, e será

Opinar de fácil moda

Vociferar a vida toda

Que tudo foi mal

 

Adamastores, velhos do restelo

Sempre os houve

E os haverá

Não é hoje que matamos

O destruir da construção

Construir a destruição

Sobre cinzas não há

Espírito que rejuvenesça

Essa moda fatal

Que é estar, não ser

Que é tudo mal, afinal

 

Lírico canto eu não entoo

Para tal não tenho garganta

Meu canto, meu encanto

A minha caneta vibra

Com a palavra que pranta

Da minha namorada

Tal corda de fibra

Para convocar enamorados dela

O que sei é escrever

O que medita, e me dita a mente

É esta a minha forma     de agradecer

Aquilo que sou, foi ela

 

Enamorados, mobilizem

Motorista, cozinheiro, professor

Mineiro, artista, polícia

Reformado e pensionista

Cada um que eleja

Arma limpa e leal

De lutar contra quem

Este quintal quer suspender

De respirar

De uma só vez desfalecer

E a vender

Por trinta moedas de prata

Tal Judas Iscariotes renascido

Neste canto querido,

Que é Portugal

 

A minha namorada mandou-me último recado:

Este não é o fado desfeito

Não se envolvam em desgraças e prantos

Quem luta terá efeito

A última palavra não é dos insanos”

Da minha namorada de novecentos anos

 

 

LUMAVITO

15/06/2013

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publicado às 00:12



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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