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NAS MARGENS DO RIO

por avidarimar, em 10.05.15

140405 IMG_0023.JPG

 

Apetece-me vaguear pela cidade

Pisar as pedras da calçada

Que serpenteia os nacos de construção

Que se empilham nas margens desta rua

Como se a seguissem até ao cruzamento

Como se o curso da água que corre

Pelos recantos e baixios da faixa

Que nada tem pelo meio da vereda

Se esvaíssem por ali

E segue até ao cais que espera

Impaciente pelas novas

Que chegam das ruas e das estradas

E dos campos

Todos eles para trás desta rua

Que chega a este cais

E que o admira pela frente

Envolta pela grande praça

Que admira espantada

E de olho arregalado

A lisura e secura do líquido em estado horizontal

Que parece que está,

Mas vai deslizando por ali abaixo

Sem que os olhos distraídos que por ali vagueiam

Se apercebam que o que está amorfo

E indiferente aos seus olhos

Segue o curso e o ritmo próprio

Do que não quer ficar por ali.

 

Mexe também indiferente

À presença de quem está

E que por ali vagueia, e fica

E que vai deixando um odor,

Marca de presença de vida

Animal, vegetal

No ar do reino vegetal, animal

 

E imaterial de quem fica

E que pensa

Deixando rasto por ali

E por todos os lados por onde

Passa e permanece.

 

Atirando o olhar para o outro lado do cais

A água passa imperturbável

Ao odor de quem não acompanha o seu passar

Noutra senda, noutro sentir corrente

Com outro afazer

Que não tem a ver com a azáfama dos humanos

E procura outra dimensão que não aquela

De quem lhe aperta a garganta

Entre margens que aparentam aveludadas

E o deixam escapar por entre os seus lábios

Húmidos e embevecidos

Por sentirem aquela humidade

De gente tão distinta como aquela

Que escorre por ali a fora

Como se fossem naturalmente lubrificadas

Para que o líquido escorra naturalmente

Com a paragem marcada para reabastecimento

E viragem para outras paragens.

 

Olho o esforço despendido

Por todas estas forças

Convergentes, mas altamente dissonantes

Nos interesses auto parcelares

Porque esta existência é marcada por instantes próprios

E que chocam facilmente com os interesses coletivos

Que são o polo oposto com o ego umbilical

E atiram com que facilidade

Para o egoísmo exacerbado

Do que é estupidamente marca pessoal

E rasto de fedor incontrolável

Inalado no ar de todos os sere s que o são

E dos que o tentam ser

Seres animados pela energia reativa

Da inveja e do asco

E que, desmontadas, não são mais que bosta petrificada

E que se arrasta por estas ruas que parecem pessoas de bem

e benévolas

Estupefactas pela admiração que lhes dedicam outros seres,

Esses sim, seres diferentes, indiferenciados

Que não têm notoriedade

Nem interesse por se sentirem diferentes

E amados, e arrebatados por outros valores

Que se podem apresentar pela dignidade

De aparecer, e de estar

Por que estar também tem saber

E o saber também se instala

E conquista

Em que se anota com dificuldade de estar, e de ser

Mas continuam a teimar em respirar pela narina

E a olhar pelos olhos esbugalhados

Da admiração espantada

E desenfreada.

 

Gostaria de fazer uma viagem por dentro de todos estes olhos

que olham por dentro. E miram por fora

Vão e veem, sobem e descem

E despem o que é despido

E revestem tudo o que é movido

Revestem com desprezo e indiferença

O que é diferente

E o que é naturalmente parvo e estúpido

Pois que sendo estúpido se torna naturalmente aceitável

Pela hoste que é raça de entendimento animal

E por isso se torna acontecimento banal

E o que é banal é socialmente aceitável

Pelo que de grau de rigor

Sendo aceitável, não é relevante

Pois o aceitável é concordância fraca

Básica e repugnante

 

E pelo cais que desliza da andança

Passa o produto das sociedades

E o suor das pessoas

O dinheiro dos agiotas

O esvoaçar dos pombos

E os ovos moles das gaivotas

Sem que para tal tenha feito

Qualquer esforço de rimar

Os navios acostam impávidos

Aos movimentos dos circulantes

Acomodam-se sempre do mesmo lado da colina

E do mesmo lado dos mesmos

Pois a postura é contínua, repetida

E o cais apara o golpe da batida

Sem disso se queixar

Sem anotar a dor infligida

 

O escorrido do piso

Não é pó não é vapor

Tresanda a ácido

A mijo

Nas pedras maltratadas

Do tráfego dos artigos escondidos

Entalados no contentor

É maldade do humano estupor

Cama aberta sem almofadas

Água branca sem sabor

Escorridas das encostas

Das ideias corcundas anafadas

 

Registo o som do silêncio

Entranhado no borburinho das ideias

Com o timbre da confusão

Gerada no esperma da fantasia

Em uníssono com as vogais da elegância

A voz desgarrada da ilusão

É nada que tudo porfia

E em tudo o que nada alcança

 

Chora lágrimas de cortiça

Granulado de vinho e sangue

Do porco acabado de morrer

Misturado com sal

Beleza retocada e postiça

Vapor de inspiração

E languida capacidade de resignação

 

Mas o rio

O rio corre sempre indiferente

Sem olhar quem passa

nem por quem passa

E segue o seu destino

Alheio às máquinas e geringonças

Que descarregam os navios atracados

E que trazem as especiarias de plástico

Vindas do oriente

E que pululam nas lojas

Que estão abertas todos os dias

Durante cinco anos

Até que se esgote a isenção fiscal

 

Mas é assim que se vive

Ao longo das margens deste rio

Que corre sem cessar

Impávido às quotas leiteiras

E à imposições do limite de produção

Da união europeia

Em troca dos milhões e milhões

Que entraram no bolso de meia dúzia

E o restante dos dez milhões

Está a pagar as favas

E não as come

Para que o curso do rio não se altere

E o rio corra sempre altivo

e indiferente ao desemprego

e à emigração

à pobreza cada vez mais acentuada

à dor de alma instalada pela vergonha

De se sentir mutilado na cidadania

Mero número sem contar pra nada

E arrumado na prateleira da dignidade

 

E o rio

O rio não para

E segue o curso de tantas vidas

Tantas ilusões que se criaram

As esperanças que pairaram por cima das cabeças dos números

Os números que foram relegados para sucessão numérica

Mergulharam na desilusão

E assim se mantém no curso deste destino fadado

De correr sempre para o mesmo lado

Indiferente ao curso dos números.

 

LUMAVITO

10/05/2015

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publicado às 21:22



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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