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MEMÓRIAS

por avidarimar, em 04.06.15

O sol nasce do lado do olival.

A estrada empedrada acompanha o movimento do sol.

Da janela do quarto dos rapazes, se queremos ver o sol, não podemos abrir o estore, nem correr as persianas.

Na janela do quarto dos rapazes, os vidros são de madeira, ressequida pelo tempo.

Do lado do olival, havia uma figueira, a figueira grande, tão grande que nos roubava o sol que entrava pelas frestas da madeira.

Por roubar o sol que nascia do lado do olival, o meu pai cortou a figueira grande.

Para que não perdêssemos a memória da figueira que tapava o sol, o meu pai deixou-lhe o filho primogénito.

O eleito cresceu do lado do sol, que irrompe todos os dias, sendo avistado apenas pelas frestas do quarto de fora, o quarto dos rapazes.

Eu nasci em Outubro, o mês do limbo, em que a faina agrícola não tem uma tarefa específica.

Os figos estão apanhados. Alguns ainda secam na eira.

A vindima está feita, e o mosto já fermenta. Em breve provar-se-á a pinga.

Aguarda-se que a azeitona amadureça.

Nesse mês, o sol nascia exatamente pelas frestas da janela do quarto de fora.

Antes que o sol nascesse, o velho despertador tocava no quarto dos meus pais, às cinco e um quarto.

E o António, dorminhoco como era, nada ouvia, ou pelo menos não dava sinal.

Eu registava o som, impelia um movimento de rotação sobre mim, e adormecia, ancorado nas novidades de cada dia.

Enquanto eu, sonolento, ainda dormitava, o meu pai cavava a vinha, a seguir ao olival.

Rigorosamente às seis e trinta e cinco, sentava-me mecanicamente no colchão de camisas de milho, e aceitava o covilhete das sopas de café com leite, sempre à mesma temperatura. Enquanto fazia o almoço para levar para o cantão, o meu pai brindava-me com o pequeno-almoço.

O António, esse, dormitava.

Levantava-me da cama de ferro, que tinha um colchão cheio, bem atestado de camisas de milho. A tecnologia da palha de centeio já tinha ficado para trás.

Na estrada empedrada, passavam alguns carros por dia. Pelo roncar de cada motor, poder-se-ia decifrar o abastado que passava.

A estrada empedrada que nos conduzia ao resto do mundo era a mesma que ligava à estrada de alcatrão, onde o meu pai tratava do cantão.

As giestas, os ciprestes, as curvas e as valetas, o grau de inclinação na contracurva, a estatística do trânsito, eram disciplinas na faculdade que o cantoneiro frequentava diariamente.

Em todos os finais de tarde, a bicicleta de três mudanças surgia imponente na curva junto à escola, a minha escola, e a bicicleta do meu pai reluzia, mesmo sem o reflexo do sol, que todos os finais de tarde, escondia-se por detrás da serra de Aire.

Nesse tempo, tudo era calmo e certo, ou, pelo menos, nada de anormal se passava. As palavras mais soletradas formavam um léxico reduzido.

À pacatez, juntavam-se a modéstia e a humildade, sempre apoiadas na honestidade.

Caridade era um vocábulo recorrente, acompanhada da inseparável seriedade. A parca cultura e desconhecimento do mundo não era motivo de vergonha.

Valores morais não faltavam. Merda era termo banido da linguagem em sociedade, e só pronunciada às escondidas. Graçolas surgiam repetidas, como chavões aplicados em qualquer enquadramento.

Os sermões do prior eram o mar em que os espíritos navegavam, quase que submersos, tal a carga que transportavam.

Aparentemente, tudo era pacífico.

Aos poucos, o órfão da figueira grande tornou-se a figura esguia, a figueira nova, alta, porte altivo, e era a pista encantada do escorrega.

Aos poucos, a bicicleta reluzente deu lugar à Zundap, também ela de três velocidades.

O olival foi dando lugar à vinha nova, que acrescentava a velha vinha. Há que garantir a pinga da nova geração.

Cedo me habituei ao gado e às fazendas.

A mula, moira de trabalho, pachorrenta, com traços de animal nobre, surgia aos meus olhos, como se de um cavalo se tratasse. A crina aveludada erguia a imponência dos puro-sangue, fazia-me passar por um pajem dos tempos medievais, feito cavaleiro do reino.

As ovelhas, companheiras inseparáveis das jornadas de fim de tarde, pelas encostas e nos montes do cabeço do moinho, e nas carvalhas, aproveitavam os momentos de brincadeira com pedras, bugalhos e cavacos, para invadir os terrenos vizinhos, deixando rasto nas couves, favas e demais culturas.

Cíclicas produtoras de leite, a joia das brincadeiras residia na observação dos borregos nas suas traquinices, saltando como cabritos.

Na memória, correm ainda os gatitos, lançados nas acrobacias, quais palhaços no trapézio. Não se contabilizam arranhadelas nos braços.

A Edite já não usava o escorrega, foi pra Lisboa trabalhar, criada de servir, em casa duns senhores ricos. Farta da carroça puxada pela mula, que também puxava a nora da horta, foi descobrir as virtudes da capital.

A Zita, sempre cordata, já tinha ido pra Lisboa. Não tinha muito jeito para as fazendas, e o padrinho arranjou-lhe um colégio de freiras, onde podia esmerar a educação.

O António rumou a outras paragens, conquistando a salto, as terras da cidade luz.

A Justina casou, e ficou tão perto, que via nascer o sol no olival, todos os dias.

O Agostinho e o Manuel cedo seguiram outras vidas por terras africanas, onde Gungunhana tinha feito história. O tio tomou conta deles, pois eram os rapazes mais velhos, e eram filhos de gente pobre.

Pouco a pouco, o sol já não brilhava tanto, e a luz que entrava pelas frestas, outrora resplandecentes, foi fazendo parceria coma s teias.

O sol, cansado de passar no que antes fora o olival, e a vinha nova já não tinha em cima os olhares jovens que a viram nascer, foi murchando. A vinha perdeu o gosto pelo astro rei.

Sem o entusiasmo habitual que marcou uma vida, o cantoneiro também ele, o homem dos sete ofícios, foi-se afeiçoando à nova realidade.

A 4L rumava com mais frequência, até aos subúrbios da capital.

O lado laborioso e empreendedor deu lugar a uma doce ternura, numa tez curtida pelos raios solares, que não passavam pelas frestas da janela.

Talvez seja preciso deixar pra trás uma obra consolidada a pulso, para conquistar um novo bem-estar moral, junto de quem mais se ama.

A Lucinda, mãe de tantos filhos, protegida pela louca paixão do homem de ferro, acompanhou o desenrolar dos acontecimentos, e a realidade não lhe surgiu estranha. Aliás, percebia-se na sua face, a satisfação sempre que cheirava a cidade.

As emoções, viveu-as à sua maneira.

Aquele mesmo sol que se desvaneceu nas terras da vinha nova, ganhou brilho em solo onde o rei lavrador tinha deixado marcas de sete séculos.

As suas viagens frequentes da corte a Odivelas ficaram famosas pela busca sistemática do investimento cultural, quer pelo seu rasgo poético, além do aconchego carnal que encetava.

Não conheço versos escritos pelo cantoneiro. Não me chegaram prosas embelezadas, escritas pela sua mão. Mas em cada traço, em cada momento, num sorriso catapultado na expressão facial, leio estrofes sem fim, de uma vida carregada de sentimento.

Nasci em Outubro, mês de um limbo letárgico, junto ao equinócio, enquanto o sol já passou o equador, e viaja a caminho do capricórnio, um movimento de declínio.

Tento perceber a verticalidade de uma vida, marcada pelo entusiasmo latente e equilibrado, o sol do equinócio.

Há quem construa a dignidade com muito trabalho, e obediência moral cega aos princípios apregoados.

Outros entendem-na pela resistência às agruras dos imprevistos, correndo sistematicamente atrás do prejuízo.

Será encarada por alguns outros, através da opulência do dinheiro, alicerce da construção do ego.

Percebi ainda, que dignidade pode ser um estádio de consciência, misturando um pouco de tudo.

Cá por mim, gosto da ideia de poder ser pobre, mas não ser ignorante. Posso não ter bens materiais, e não ser parvo, não embarcando na cobardia de me embalar na tendência das maiorias.

Os traços de carater não permitem flutuações.

Ser digno é saber escolher entre o caminho fácil, e o exigente, não contornando os sobressaltos do trajeto.

Por mim, vejo os meus passos marcados pelos traços indeléveis do carater do meu cantoneiro, como a pele que regista o ferro em brasa.

Por isso, pela força motriz que impulsionou em todos os instantes, cada dia é um onze de Março, bem vincado, penetrando na minha pele.

E o sol já não entra pela janela do meu quarto. O dos rapazes fica registado nas memórias.

O meu colchão já não é de camisas de milho.

Hoje o sol põe-se por detrás das amoreiras, ao lado do matagal.

 

LUMAVITO

04/06/2015

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publicado às 23:33



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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