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MAR DE SEGREDOS

por avidarimar, em 13.04.15

Olho a lua           com longas faixas

De seda flutuante

No lençol embalado das águas

Em noite de brilho e encanto

Do balouçar da onda que sussurra

Vindo adormecer na areia reluzente

Na praia que murmura

Ardente

E diz à onda que descanse

Que eu te embalo          te afago

E amparo

Como donzela de romance

 

Ao fundo recortado       o socalco             a encosta

Em escuro contraste com o restante

Esconde os segredos da água

Que agita

Outra onda        mais outra

E ainda mais uma

Som ritmado, batido, arrebatador

Este ritual fervilhante

Ao mesmo tempo          silencioso

Parecido com embriaguez extasiante

Chega suave      deslizante

Sem espuma

À sola do pé despido

Enamorado pelo som de gemido

Do fresco líquido que o perfuma

 

Este fervilhar do silêncio

Não contempla o silvo do comboio

O trovejar do avião

Os carros nas avenidas

Cravadas de gente, poluídas,

O badalar do sino da igreja,

Nem sequer, de gente que se veja,

Por paragens onde

Não tem lugar a confusão

 

Lá longe, no meio do crepúsculo

Uma luz balança, tonta feita

De tanto dançar

Ao sabor do ondulado das águas

Pululando

Apoiada numa barcaça

Que por ali dança

E descansa

Assistindo à azáfama

Do vagabundo pescador

Do peixe tentando colheita

Solitário, atento, astuto

Que bem sabe

Onde o pescado deverá aparecer

E não acontece, ele não morde

Não pica

E ele      por ali fica

Até que outro peixe se entregue

Ao sustento de quem tanto persiste

 

Olho ao largo     resplandecente

O mar, não se cala

E no meio de tanto silêncio

O meu pensar explana, corre, percorre

Furando entre ondas, embala

O prazer da vastidão

O sabor intenso

Da brisa a entrar suave

Pela narina,

A olhar o imenso, que se espraia

No meio desta clara escuridão

Que combina

Com este lado, a magia da praia

 

Esvoaçante brisa, finamente brisa

Brisa do mar

Suaves sopros por entre ramagem

Entre as dunas, molengonas

Acompanham o meu olhar

Sorriem com o meu sorrir

Contemplam juntos, o imenso

O imenso mar, mar sussurrante

Como as minhas ideias

Também elas errantes

Tal a grandeza

De planos, horizontes

Profundezas, instantes

Vagueia o brilho nos olhos

Não há vales, não há montes

Há uma imensa vastidão

De sinais, gestos, mensagens

Vindos de longínquas paragens

Chegam frescas, na crista das ondas

Como se fossem escritos

De quem quer anunciar

Que este mar que nos separa

Também nos une,

Traz novas de esperança

Confiar que é possível

Dar as mãos, por entre as ondas

Estender os braços

Apertar abraços

Fraternos, quentes

Falar a mesma língua     a expressão do mar

Murmúrio, ouvir o sussurrar

Do refluxo

Balbuciar sons diferentes

Das palavras dos humanos

Para eles, enigmáticos

Esta linguagem dos oceanos

 

Não me apetece primar

Dá-me vontade de espraiar

O pensar             reflexão

Por cima e por dentro

Da espuma da crista

No balouçar das ondas

Circular ao sabor dos movimentos

Redondos, estonteantes

Indo ao fundo e voltar

Cabeça de fora, respirar

Fitar em redor

Captar o tão imponente panorama

Por tão inebriante libertação

Leves pensamentos

Ligeiros e lentos

 

Fico horas, ocupo dias

Passo o tempo a esquecer

Esqueço a espuma da vida urbana

Fico até não me lembrar

Que tenho coisas a fazer

Por obrigação

Neste mundo tão louco

Sem prazer

O deleite que aqui nutro

De falar com o mar

E ele me dizer

Este mundo, de natural tem pouco

Absurdo, insensato

De morrer

E mata, e vai matando

Sem avisar

Tal a pressa arrepiante

Com que se tem que viver

Neste mundo galopante

Ir depressa, e voltar

Logo de seguida              Perecer

 

Apetece-me parar a vida

Fundo, respirar

Fechar os olhos

Sonhando, contemplar

Se há coisa que compensa

Suspender o tempo, a pressa

Descontraído, natural

Deste lado          nesta margem

Do mar

 

A existência não para

Mas saboreá-la podemos

Deixem, ao menos

Sorver cada gota de orvalho

À medida que o tempo passa

E se chega a aurora

O raiar do outro foco de luz

Essa luz que traz o dia

Essa estrela pregada

No outro mar de cima

Por cima do horizonte

Vai fazendo jus                A este silêncio de ouro

E volto à rota empoeirada

E ao caminho de alcatrão

Que me reboca

Desatinado, ao betão

Sentido contrário

Ao meu desejo

Sem que tenha o ensejo

De ficar por cá

Sem que saia da boca

Desabafo

Clamor de um até já

 

Quero ir e cumprir

O que me é exigido

Como ser, elemento social

Imperativo do labor

E logo que cumprido

Voltar

Ainda ao longe, escutar

E ouvir as novas do mar

Meu amigo, companheiro

Compincha e conselheiro,

Voltar a navegar

No teu silêncio

No teu bruar

Sentir a fresquidão, saborear

Em cada braçada, mar adentro

Mais ninguém por perto

Que assista à nossa conversa

Ir à frente, flutuar

Mais mergulho ao fundo

E voltar, sem pressa

Nem pressão

Encetar nova conversa

Com o amigo

O mar!

 

LUMAVITO

12/08/2013

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publicado às 00:08



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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