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LEONOR

por avidarimar, em 13.04.15

Conheceu Leonor a cidade

Tinha ela dez anitos

Que fizeram memória

Em singela história

Três dias em Abril

Na ingénua cabecita

Vinda do meio pastoril

 

Ouviu o pai Tóino falar

Que matariam um borrego

Ao estomago aconchego

Cozer pão alvo e broa

Para levar aos primos

Que vivem em Lisboa

 

No dia certo    Ou antes

Certa noite     Quatro e meia

A mãe Rosa chamou Leonor

Julgava a mãe            Calma             Sem alarido

Nônô em sono seguro

Só agora interrompido

Mal sabia que a fedelha

Nem olho tinha pregado

Tal a ansia no olhar

E a pulga na orelha

 

Deu um salto na cama

Três cabazes cheios   Uma alcofa forrada

Com quatro dúzias de ovos    Uma lata de azeite

Um garrafão de palheto

Coisa que os alfacinhas                     Já esqueceram

Uma galinha de pés atados

Um saco de batatas   Uma seira de couves

Queijos apimentados.

 

Queria rápido sair da aldeia

E lá foram de carroça

À luz da candeia

Até à estação do comboio

Por cima de qualquer poça.

 

Tudo o que no escuro                        Repousa

Na memória   Registada

As rodas grandes        Em metal duro

Degraus de chapa perfurada

Onde o pé pousa

Janelas a todo o correr

Mais o apetite afiava

Árvores águas sítios   Casas   Pátios

Corriam lá fora                      Sempre ao contrário

Uma figura crispada Tom antipático

Voz abagaçada                       “O seu bilhete!”

 

O nascer do sol                      Ao fundo da paisagem

E o som metálico veloz

Intercalado     “Com paragem

Em todas as estações e apeadeiros”

Cabeça de fora, leve aragem

Tom elevado na voz

Ver apregoar aguadeiros.

 

Quando já refeita no ardor

De tantas coisas novas                      E se acomodava

No banco rijo Mas encantador

Tudo o era      Tudo espantava

A minhoca deslizante

Abranda e imobiliza-se                      Após viagem fatigante

“Na estação de santa Apolónia

Vindo na linha do norte         Parado na linha numero dois”

Em profunda babilónia.

 

Portas escancaradas

Pai Tóino desce os degraus   Para a gare da estação

Mãe Rosa entrega-lhe os volumes

Um a um até ao último                     O cesto dos legumes

A galinha de pés atados         No meio da confusão

Mais morta que viva No piso da composição

Depositou       A sua marca substantiva.

 

Pai Tóino tira a boina

Indicador apontado    A contar a mercadoria

A mão escorrega da meia careca

Em sinal de satisfação

Tudo chegou inteiro   Incluindo o garrafão.

 

Largos minutos até sair

Fora do terminal        Santa Apolónia

Sem que se queixasse            Qualquer dentista

Sua padroeira

Sem que do facto       Haja realce

Foram os volumes saindo      Entre tanta canseira.

 

Cheira a mar Odor intenso do Tejo

Agitação desconcertante

Assusta ver

Tanto carro     Tanta gente

Tudo em tamanho      E quantidade

Forma inusitada

A garota espantada

Repleta de encantos

Frente a tamanho      Reboliço

Olhar insubmisso

A precaver maiores espantos

Face de sorriso retraído

Sem se atrever a dar passo

Que não fosse medido.

 

Vindo do lado dos cafés

Mais tasca para alguns

Ali bem perto do terminal

Se aguardada por uns

Surpresa de corar da Lurditas

Surge figura que berra

“a fedelha está grande,

É o que fazem as couves lá da terra”.

 

“E os tomates também”

Riposta o pai

Para continuar a graçola

“Ó Toino, tás gordo

Fazem bem os ares    Da aldeola”

“A Rosa é que continua um palito

Não te canses, mulher

Tens de andar mais no burrito”.

 

Do entusiasmo                       Voz esganiçada

O Jaquim        Primo do Manel

Vai para dezanove anos

Motorista da CARRIS

A boiar dentro da farda

Dando fim à palheta

Vai pegando nos volumes

A caminho da caminheta

Mesmo ao jeito

De quem levanta barris.

 

Quem diria     Pensou Lurditas

Que tinha primo famoso

Em Lisboa       Conhece a cidade por inteiro

Mal sonha ela            Que as tascas do melhor tinto

                                        Em cada rua ou bairro

São certos no seu roteiro.

 

Até à casa do primo   Á baila

Vieram os assuntos importantes

A ponte nova Para o lado de Almada

O metropolitano

Que passa       Por baixo da avenida

Do Salazar      A queda da cadeira

Entretanto desmentida

O Eusébio, o Benfica

O azar             De quem de lá da terra

Tentou passar a fronteira.

 

À pequerrucha                       Nada chegou

A não ser o que, na rua

Era pessoa, carro, montras

Ruas sem lama

Candeeiros a tocar o céu

Jardins e pontes

Terras que ninguém amanha

Prédios aos montes

Estradas que passam             Por cima doutras

Coisa estranha.

 

Compacto de sentimentos

Entusiasmo esfuziante

Esquecendo a fome    Mais que muita

E da amarela

Apesar da bucha matinal

Trincada junto à janela

Do comboio trepidante

A caminho da capital.

 

Alto toucado   Que encanto

À chegada, a prima    Querida

Tinha beijos    Muitos beijos

E espanto

Pela miúda tão crescida.

 

Pronto já tinha

Um arroz de salsichas            E pimentos

Coisa fina        Requintada

Com faca e garfo

Etiquetas a rodos

E imagine-se

Guardanapo para cada um

Copos finos para todos.

 

“Deixa lá as etiquetas

Lá por             À mesa teres

Garrafa de rosê

Nada há          Como o garrafão

Do tinto lá da terra”

De concreto

Vindo dos socalcos da serra

No centro da mesa

Do palhinhas   Saiu palheto.

 

Festança         Feita de sorrisos

Piadolas          Sarcasmo

Larachas         Entusiasmo

Montada de improvisos

Beijinhos à garota

Corada na face

“Esperta a magana

Parabéns pois ficou bem

No exame da quarta classe”.

 

As ovelhas esperam

O cão como estará

Regresso é no domingo

Após lauto almoço

Recheado de conversas

E lérias

Bem regado    Ao lado dela

Desfeito o borrego     Ensopado

Depois da missa         Na capela

Da senhora da agrela.

 

Volta à tona no tempo

A história        Da miúda pastora

Jovenzita         Menstruada

Já parecia senhora

Volvidos três anos      Espigada

Das badanas   Guardadora

Três anos

De diálogo com o gado

E os calhaus mudos

Triste fado

Depois de cartas        Telefonemas

O caminho lhe ditaram

Para a lide doméstica           

Socialmente dominante

Continuar estudos

Para as ovelhas                      Irrelevante

Já que são elas

O valor importante.

 

Ansia crescente          Inchada pelo tempo

Viver em Lisboa         Primeira paixão

Da princesa da serra Rainha da solidão

Errante           À toa

Ao sabor da chuva      do vento

Pela serrania

Cansada de apenas cantar

Ingrata monotonia.

 

 

Dito lhe foi      Que iria para Lisboa

Já que a prima

Por quem a Lurditas   Tem muita estima

Conhece da igreja

Uns senhores distintos          

Não falta o dinheiro

Ouviu falar de                        “Senhor engenheiro”

Gente fina       Respeitada

Que pra criada reservou

Um mero vão de escada.

 

Aprender educação

Ter mãos finas

Usar de muito zelo     Bons modos

            Princípios        Formação

O cabelo         Cortar

Com a senhora dona

O preço da estadia

Trabalhar em maratona

Todo o dia

Comer             E calar

A troco de trinta chavos

Que o pai        Lá na terra

Faria por guardar.

 

Ainda a moçoila sonhava

Estranho ar     Se foi instalando

Vazio virou amargo

Corredor canto recanto

Na voz o embargo

No estomago Novelo

Instalado         Desencanto

Das ovelhas    Longe o balido

A serra                        As encostas

O olhar do cão           Certamente sofrido.

 

 

Já o dia ia alto

Crescia           

A pressão

“vai buscar” “limpa” “arruma”

“Assim não”

O mau estar que sofria

Se pensar coisa nenhuma

Garganta seca

O suor escorre da testa

Desnorteada   Perdida

Entra na biblioteca

Coisa imensa Medonha

Sem janela nem fresta

Sem luz          Aturdida.

 

As noites         Inferno

Mal dormidas Pesadelo

Engrossam marcas    De dor

No rigor           Do inverno

Os pés                         Um gelo

Só o espírito serrano Sofredor

A incita ao duelo.

 

Afinal

A cidade com tanta luz

Sol radiante

Cheia de orgulhos      Em cada instante

Tamanhas alegrias

Também tem Cantos medonhos

Casas frias      Recantos gelados

Tristeza nos olhos

Miúdos maltratados

 

 

No tempo        Novo salto

Bem sofridos quatro anos

Tempo amargo

De carinhos bem falto

Em precária semanal saída

Numa tarde de domingo

Em vez de rumar à casa da prima

Fingindo-se perdida

Molhada que nem um pingo

Da malita sacou alguns escudos

Primeira vez entrou

Na pastelaria da avenida

“A Princesa dos Vagabundos”.

 

O que pedir    Sem saber

Brilho nos olhos          Que cheirinho

Tantos bolos

Que pecado de gasto

Um café          Um queque fofinho

Doce    Tão doce

Ficaria ali nem que fosse

Até às sete da noite

Tal era o apetite.

 

Num relance cruzou o olhar

Com uma cara picada

Cratera das borbulhas

Ao canto da sala         Iluminada

O Joaquim Fagulhas

Frente a uma cerveja

Fita-a espantado

Pára    Pestaneja

Com o ar desconcertado.

 

Uma fuga programada

Certa semana

No rosto          Vergonha estampada

Da moça serrana

Numa tarde de domingo

Outros tantos encontros

Os dois

Cada semana Tempo infindo

Depois

Conversas e    Planos aos quilómetros.

 

Após oito horas de trabalho

Na dita pastelaria

Salto de gigante

Nunca sonhados         Altos voos

Mal disposta   Enjoos

Do que seria

Foi ao doutor especialista

Ainda no ar o tabu

Coisas sem ofensa

É questão de cagança

Chamar Ginecologista

 

No quarto alugado

Dum apartamento     Rés do chão enjaulado

O Joaquim      Alto     Magro

O mais novo da oficina

Metalúrgico profissional

Após dia infernal

Calça de bombazina

Ar abatido       Cansado         

Chave à porta

Buscando a Campesina

 

Beijos Carícias

Qual cansaço

Esfumou-se no abraço

Terno Intenso            Prolongado

Delírio de Delícias

Aquele coraçãozito acelerado

Sussurra-lhe algo ao ouvido

Pendurada no pescoço

O Moço          Aturdido

Imediato          Em alvoroço

Dois saltos      Corre à janela

“Escutai…        Vou ser pai”

Algazarra que se ouviu

No último piso

Volta atrás      Rasgado sorriso

Do tamanho do auto estrada

Olha para ela            A tão amada

Companheira de interações

Assim ficaram largos minutos

Recuperando das emoções

 

Recordam os pais       A família

Que antes a triturou

Com eles a quezília

Por ingrata

Três meses antes

Fugiu da casa do engenheiro

E se juntou

Com o serralheiro

Farta do jugo do dinheiro

Que o pai arrecadou.

 

Para trás         Com saudades

A terra                        As ovelhas

As encostas     A serra

Os bois em parelhas

“Farrusco” O seu cão

A mãe             Sempre na sombra

Sem liberdade de escolher

Sem direito a opinião

Condição         De ser mulher.

 

Nova vida        Nova sorte

Desfrutando novo mundo

Determinada   Mais forte

Com o sentimento profundo

Já com um anito

O orgulho do casal     O puto Joãozito

 

LUMAVITO

7/12/2014

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publicado às 23:53



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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