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FÁBRICA DE SER E VIVER

por avidarimar, em 12.04.15

Tenho uma fábrica de fazer

Fazer nuvens    alegria                 chuva e sonhos

Fábrica virada para o mar

Ondas na praia a morrer

Uma fábrica de fazer e desfazer

Ódio      dor         angústia

Tal fel que não deixa amar

 

Tenho fábrica de acordar

Para a vida simples         alegre  e de querer

Que olhes para mim

Com esses olhos do teu ser

Essa atenção de escutar              enfim

Por entre teu choroso olhar

 

Carta aberta do coração

Fábrica de interpretação

Dos recados do vento

Nada me contas de teus segredos

Que são produto dos teus medos

Para qualquer ser atento

 

Tenho fábrica, e eu lamento

Não poder decretar

Com rigor e lealdade

Aos meus assalariados

Que só se fabrica felicidade

Nos pontos mais variados

 

Tenho fábrica de fazer

Contos de fadas              e adormecer

Uma fábrica de fabricar

Histórias de faca e alguidar

Contos de amor apaixonado

Com este mesmo coração irado

Lábios secos de mirar

Que olha outro coração vidrado

Ódio que assalta sem falar

 

Tenho fábrica de coser

Com linhas, trapos rotos

Fábrica que faz fazer

Linha de coser versos soltos

 

A minha fábrica de fazer

Revolta com palavras

Palavras com rosto

Constrói armazéns de ideias

São doutrinas sérias

E no meio da tua praça

Constrói também o desgosto

 

Na minha linha de montagem

O artigo a sair é a esperança

Juntei-lhe nove grãos de amor

Seguem à câmara de calor

Com vontade, nada cansa

Seguiu à zona de arrefecer

Passei com o ferro a vapor

Que é meu por herança

Minha avó se lembrou

A este rebelde, o meu ferro

Lembrou-me também

Que os filhos dos meus netos

Serão avós mais além

 

A minha fábrica de fazer

Faz estradas e caminhos

Rios rasgados pelas águas

Corações fritos em mágoas

Produz urzes e rosmaninhos

Que confere aroma ao meu correr

 

O meu engenho de queimar

De destilar e refinar

Das mãos usar e fazer lume

Dissipar os restos da desgraça

Usar o braço que abraça

O teu ser             teu sentir

Arrancar simulada mordaça

De forma livre                  falar

Sem se fazer ouvir

Quero usar a voz

E entoar um hino à revolta

O descontentamento descontente

Bater a qualquer porta

Juntar gente

Para engrossar o coro

Do protesto

Dizer aos que constroem

E alimentam

A desigualdade                                vivem dela

Haja barraca ou favela

Dizer aos que são feitos desta pasta

Não queremos mais

BASTA

 

Na minha fábrica de pensar

Planeei

Este mundo é injusto

Não quero mais fabricar

Ódio      vingança              tristeza

Quero ter a certeza

Que na minha fábrica de fazer

Só sairá produto

Que não amargue a alma

Não lhe dê fel

Não lhe ponha muito sal

E a tempere com alegria

De manhã à tarde, à noite

Faça sol ou enxovia

Quero júbilo todo o dia

 

Na minha fábrica de decisões

Resolvi…

Vou ter com o chefe

Da linha de montagem

Sentar-me frente a ele

Em tom de coragem

Direi:

Decreto que na nossa fábrica de empreender

Não se fabrica mais fome            desgraça             miséria

Tortura, ameaça

Fuligem

Não mais produtos tóxicos

Vida indigna já é coisa séria

Vamos usar outros propósitos

Para maior conforto da raça

Linhagem

 

Espantado, boquiaberto

O meu chefe de linha

Ficou aterrado de tal decreto

Fitou-me nos olhos        fundo respirou…

E disparou:

Mas       patrão...

Temos de mudar toda a linha de produção

Os nossos processos

Vão sofrer retrocessos

E não vai dar resultado

Se não alterarmos

Os componentes do produto acabado

 

A reacção química será outra

E o artigo deterior

Só temos uma saída

A solução afirma

Que só a coisa melhora

Se alterarmos matéria-prima

A minha fábrica é imperfeita

Não tinha previsto desfeita

Do equilíbrio do produto

Ideia que refuto

Temos que alterar a ideia

A obra final

Não pode sair coisa feia

Será saudável, amiga do ambiente

Equilibrada e sustentável

Sem dúvida, sem mal

 

Na minha fábrica de conjeturar,

Imaginei:

O que vamos alterar

É o barro do tijolo

A água do gelo

A massa do bolo

E o tapete sem pelo

 

Ideia genial

Da minha fábrica de aparvalhar

Mas que ignorância fatal

Da minha causa de complicar

 

Da fábrica de telefonar

Liguei ao meu fornecedor

De ambição

Comuniquei-lhe:

Do alto do meu saber lhe digo

Quero trocar o seu artigo

Por outro artigo

Um que não provoque maldade

Não tenha acidez

Tenha suficiente liquidez            e promova igualdade

 

Do outro lado da linha

Ouvi

No meio daquela vozinha

Vacilante             tremida

O fornecedor do mercado

Alvitrar:

Cada produto é formado

Por substâncias ativas                   Compostos simples

Simples compostos

E bem complicados compostos

De base de néctar de fel

De ácido              vinagre e mel

Cada um de calculada quantia

Em cada produto do mercado

Juntando pitadas de fado

E folia

 

Que o mercado assim estabeleça

Que há químicas formas

De moldar o pensamento

Com inúmeras peças

Que em vez de sorrir

Entornas

As lágrimas do teu tormento.

 

Sem que, por qualquer comando

Da minha fábrica de ruminar…

Não…    não cogitei

A natureza se encarregou

De, nestas alturas, quando

A derrocada de neve deslizou

Soterrado           gelei

E calei…

As unhas roí

Só parei no metatarso

Em tudo o que há de mim

Não estava preparado

Bem tento          e não disfarço

Entender que o mal do mundo

Não se pode      de todo

Banir tal fado

 

Percebi…

Pode-se pôr lá no fundo

Do poço fundo

Nem que vá ao fim do mundo

Mas matá-lo?

O meu fornecedor

Chamou-me burro         ou cavalo

 

Cristalina que sai

Da nascente bem profunda

Bem perto de gelada

Em contacto com o fel

Matéria amarga e imunda

Só por si              intragável

Faz a água contaminada

Tornar-se intolerável

Numa sala pouco usada

Da minha fábrica             encontrei o medo

Alma minha assustada

 

Assustada?        Porquê?

Assim que tal percebi

Não tarde           mas cedo

Pus pés ao caminho

A insegurança provoca medo

Como tratar este mal que há em mim

 

Nos meus tempos de rapaz

Alta noite            noite ofusca

De Assentis a Fungalvaz

Lá fui eu em busca

De bicho ou fantasma

Daquilo que assusta

Qual matéria prima que traz

Esse sentir atónito

De coisa que se não vê

E se sente

Angústia

Provoca calor    náusea                 vómito

 

Terra batida, a estrada

Irregular, empedrada

Em contínuo sobe e desce

Estreitam as margens

Sem a lua condutora

Matos rasteiros

De belos cheiros

Morangueiros e azevinhos

Cenário bem natural

Arbustos de pequenos raminhos

E ramos

No escuro           a íris reconhecia

Caminhos por onde

Várias vezes fora

De carroça ao Agroal

Bem aprazível                   de extasiar

Onde aprendi os primeiros banhos

Fora do alguidar

 

Pinheiros altos e rebentos

Sobreiros            eucaliptos           sebe

Mato real            caruma crepitante

Meus pés estalavam

Eram os únicos sons barulhentos

No meio da passada constante

Outro som não se percebe

 

Repentino…

Asa curta             bater forte

Mocho aquele não me assustou

Na oliveira          mais à frente     poisou

Não foi ali que medo encontrei

 

Rumo definido a norte

Em breu embrenhado

Passei vale         passei ponte

Em busca de novo medo             falhei

 

Desisti de alimentar o medo

Fui noutras direções

O medo não me deu pistas

Presenteou-me com bandeja das convicções

De início              ideias mistas

Que me chegam suficientes razões

Medo é insegurança

É falta de crença

Em nós e nos nossos

Somos capazes de entender o mundo

Para mais confiar

Com sentimento profundo

Que, do ofício   não são os ossos

Esses medos fantasmas

D minha fábrica de amar

 

Perdido o medo da razão

Cresci a emoção

Nova fábrica de ser

Ser autêntico    corajoso

Dizer-me a mim               e ao meu botão

Quanto me falta para ser ambicioso

De dar tudo o que há em mim

Verdade, satisfação de partilhar

E nunca contabilizar o que dei e recebi

 

O mundo é tão grande, tão díspar

Tão diferente invulgar

Tal o critério interesseiro

Com que é olhado

A julgar

Por qualquer facto materialista

Daninho

De qualquer nosso parceiro

Ou nós próprios

Tentação

Aos outros apontar o dedo

Sem que fabrique manipulação

Peso na consciência       concebo

Acompanhado ou sozinho

 

Mundo este      imperfeito

Não depende só de nós

Nem da nossa vontade

 

É assim                 não aceito

O que hoje é verdade

Pode amanhã não o ser

Talvez possa parecer

Mas não há produto

Que não provoque dano

É assim                 é humano

 

Corre    corre     paixão

Ganha asas e voa

Não desistas      vai em frente

Segue caminho à toa

Teu coração chora

Não mente

Vai amarar na lagoa

Lagoa de espraiar a esperança

Cheia de boa gente        aquela rua

 

Coração               não desistas

Muitos sonhos a conquistar

Quantas alegrias nas pistas

Da tua paixão de arder

O teu destino não é fado

Na minha fábrica de fazer

 

Na minha fábrica

A roda não para

Avós      pais        netos e bisnetos

Hão de criar

Nova fábrica de sonhar

Hão de ver seres concretos

Sair da nova fábrica de segredos

Que já não fabrica receios e medos

 

Na minha fábrica

A ideia não para

A ideia e o turbilhão

Estão associados

Para continuar a ilusão

Que vamos transformar o mundo

E o vamos filtrar               de todos os males

Escavar bem fundo        Nos vales

E enterrá-los

Atravessar as pontes

Subir por entre árvores                               nos Intervalos

Até ao cume dos montes

Olhar o mundo                 imponente         assombroso

Gritar alto           forte     poderoso

Só fabricamos o que pretendemos        nos pedem

Este mundo é nosso      é de todos

É do humilde     do indigente

Como do perverso         do indecente

Fabriquemos o nosso mundo

À medida que caibam todos      toda a gente

 

LUMAVITO

07/07/2013

 

http://avidarimar.blogs.sapo.pt/

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publicado às 22:52



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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