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DA PALAVRA A CULTURA

por avidarimar, em 11.04.15

Palavras são grãos de areia

Neste areal profundo

Em tempos de maré cheia

E o são também

No alongar da maré vazia

À luz que a lua sustém

 

Entrelaçadas em teia

Emaranhado confuso

Não correm, não mordem

Mostram-te tudo aquilo

Que queres ver

Mas o olhas de modo obtuso

São rigor, são pudor

Dor

Alimento             Sustento

Do que te vai na alma

Linha do teu caminho

Que corres de farta calma

São limpeza       nobreza               ligeireza

O que tu queres que seja

Expressão dos teus lábios

Para incultos e sábios

Seja aquilo que for

São a tortura máxima

De quem tudo deseja

 

Com palavras eu choro

É com palavras que grito

Durmo                  respiro

Ando     desando

É com elas que aflito

Choro com palavras

Berro    Canto

Emociono

Com todas as palavras

Que tu lavras

Regas

Olhas    vês

Palavras com “tês” com “cês”

E também com ”pês”

E agás

De rara palavra de honra

Por tão parca ser

Não encontro rima

Que está para lá

Da espuma dos dias

Algo que eu busco

E tu crias

 

Palavras que o vento leva

E o tempo logo trás

Vejo-as aos montes às resmas

Aos pontapés

Maltratadas       enjeitadas

Sofridas

Mas são ainda amor

Pelo clamor, pela chama

Paixão enrolada

Do turbilhão de ideias

Que a mente, de imediato

Não filtra

Preciso não é, não cortes

A palavra que agride

Amanhã também te afaga

Te dá nortes

Na dor que te dói,

Por maltratarem estas palavras

Que declamas

Em cada passo

Que avanças

Sem sair do mesmo espaço

 

Com elas tu pensas

Mesmo que não digas

Escreves

Elas são magia   São alma

Que com gélidas neves

Tu refrescas o pensamento

Pensado

Adorado

Rebatido

Pensas que o mundo é puro

E lhe podes contar todas as palavras

Mundo sujo, ainda assim

Aproveita a palavra tua

Para de forma nua

Se atirar contra mim

Ou a ti

Todos os que não sejam arma

Para o seu próprio fim

 

Palavra a tudo serve

Incluindo o saber

Tão simples e tão intensa

Ao menino a luz adensa

E ao regato         Ao riacho,

À ribeira              Ao rio    ao mar

A palavra segue o fluido

Da nascente

Qual caso que brota

A força das palavras

Que em catadupa

Te fazem sentir

Melhor                 pior

Preguiçoso buliçoso

Assim ou doutra moda

Elas que saltitam

Não as consegues todas apanhar

No ar da tua ilusão

De a vida sorver com sofreguidão

Os momentos da vida abrupta

 

Se palavra é cultura

Peguei numa palavra

Qual grão de areia

Analisei-a ao microscópio

Vi forma              estrutura            textura clivagem

Vi coragem, cobardia

Vi ódio, amor, calor

Vi vinagre           unguento

Descobri trompa de Falópio

Entranhas e peles

De todos aqueles

Que não querendo ser eles

Compraram máscara de bondade

Não se escondem o dia todo

Toda a vida

A trapaça cai

E no microscópio vi a verdade

Rija, mole, bela, funesta

A vontade também encontrei

Naquele pedaço analisado

De lixar o outro                                minei

Vi o mundo dos espertos

Sem vergonha e sem lei

Estou farto         vista cansada

Do tudo vi o nada

De tudo o que nada sei

 

Parti daquela análise

E a outras paragens migrei

Fui analisar-me

Quanta vastidão

Não só solidão

É um caixote bem fundo

De areia escurecida

Pelo escuro dos dias

Gritei um “NÃO” rotundo

A esta brutal confusão

 

Quero arrumar o caixote

Para entender o mote

Que não tenho armado

Quero-o antes, escalonado

De lógica razão

Pozinhos de emoção

Lucidez que baste

Para palavras usar

Que não são minhas

Não as inventei

Delas me apropriei

E fiz meu o pensamento

Quero dele o sustento

Para dele dizer

Ara, cultiva, lavra

A lógica, a razão, emoção

Desse grão chamado “PALAVRA”

 

Se palavra é isto tudo,

O que será “CULTURA”?

Agarro no dicionário

Microscópio da palavra

E o termo encaixa

Que nem luva de seda

arte, modo de cultivar

Pois é                    arte

Arte de amar, de ver, de sofrer

Arte no entender

Que tudo o que sabemos

É arte de crescer

 

O sonho é uma arma

Que encontrei no dicionário

Do vocabulário de entender, de sofrer

De pasmar

De pedir conselhos        de aconselhar

Dá-nos asas para altos voos

Terra em terra, verso a verso

Poema do meu encanto

Aquilo que agora peço

Que respeitem a dor

Que não seja favor

Soluçar de tal pranto

 

Pranto de alegria e sabor

Rosas do meu jardim

Continuar o empreender

O que tenho para contar

Não procuro exaltação minha

Quero interpretar o mundo

A voz que tem para, sem par

Amar, repartir, conquistar

Novos lados, novos espaços

Lugares, vivências, tolerância

Não me peçam para ser breve

Nas palavras, nos traços

Tamanha a minha ânsia

Sem limites, com lisura

De espalhar o meu pulsar

Que o que nomeio

Tal importante objecto

Face outra da cultura

 

 

Quero saborear a cultura

Em todos os passos que der

Estrada fora

Caminho longo ou curto

Na esquina do centro comercial

Ou dentro dele

Na rua, no bosque, na floresta

Entre muros e vielas

Aquilo que aprouver

Por tudo anseio e nutro

Carinho raro e maior

Que aquela dor me ajudou

A saber que o sentir entrou

E teve parto sem dor

 

Olho os números

Logo fito

A lógica, o pragmático

Aceitável, responsável

Forma de resistir

Sem matemática             que seria

Mercados não havia

Só dos mercados da praça

Trocarmos carne por massa

Vitelos gordos por castelos

Sombras por camelos

E tonteiras por alegria

 

Outros grandes Mercados

Nosso rol de esquecidos

Seriam tempos perdidos

Acorda e não os marginalizes

Eles são fatia integrante

Deste mundo galante

Que se mostra travestido

De nós faz usura

Com propósito assaz, diferente

Do que entendo cultura

 

Mas cultura também é isto

Para que te sintas avisado

Não é apenas canto lírico

Fado ou supermercado

Futebol ou serradura

Telenovelas de embalar

Notícias alarmantes

De parangonas munidas

“lógica lunar”, tino muar

Qual coice de mula

Algo que não encubra

E nos obrigue a pensar.

 

Quero cantar o tamanho

O peso, a largura, o pensar alto e baixo

Em cada coisa que mexe

Que te olhe de frente,

Pensar que o pensamento

É coisa de alento

Para quem ousa pensar

Que a única coisa lógica a abordar

É discutir o evento

 

Cultura é evento, é bom tempo

Chuva da grossa e miúda

Cultura também é

Bela forma de olhar, o trigo, o mar, o céu

Tudo o que vastidão cultiva

Saber estar        saber    ler

Escrever

Tudo o que a gente cuida

Que é importante falar

Ou pensar, que o digam

“fala de modo exemplar”

 

Grãos finos de areia

Em habitual prática de respirar

São lógica falante

Daquilo que calado é

Montes deles impressionantes

Empurrados pelo balançar da maré

Grãos da nossa cultura

Nosso saber, completo

Longe está

Qual curva parabólica

Que nunca se junta à linha

Que persegue

E longe estará

 

Cultura não é pensar único

De quem se propõe filosofar

Nem que ligues todos os grãos

Da tua praia de saber

Por mais voltas que dês

Não ligarás todos os bagos a teus pés

 

LUMAVITO

13/06/2013

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publicado às 23:54



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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