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COUTADA NOSSA

por avidarimar, em 11.04.15

Por letras, palavras, expressões,

Sonetos e prosas,

Nestas ideias que anotas,

Tu que pensavas escrever,

Por vielas e linhas tortas,

Sem fim, até poder

Que fizeste?

Ficaste a ver.

 

Longe vão os dias de esperança e crer,

Impelidos pelo sentir a valia natural,

Fruto de na sociocracia, acreditar e amadurecer,

Conturbados momentos acrescentaram,

Noutra democracia este saber.

 

Porque esta não foi o que em mãos tivemos,

Tratando por tu o direito e dever,

Com mestria este povo segurou os lemes,

Se com trabalho o futuro não temes,

Cabe agora saber sofrer.

 

Não que de convicta forma o tenhamos escolhido

Pese aceitar que não sendo contributo meu,

Com todos fizemos a força

Uma parte não faz coisa grossa

Sozinho nas fraquezas, ninguém venceu.

 

Esta sorte foi de todos nós convicta escolha,

Tais as ilusórias promessas de mudança,

Acreditámos que folha a folha,

Juntaríamos de todos o esforço,

Faríamos um compêndio grosso

Que mostrasse a nossa esperança.

 

 

Das rosas tínhamos os agudos espinhos

Das foices e blocos a utopia,

A tolerância dos centros de mesa,

Das laranjas pensávamos, com certeza,

Para o próximo futuro, a nossa melhor via.

 

Quem escuta a promessa dum político

Se é honesto nele confia,

E este prato bem apresentado

Calculámos bem confeccionado,

E transmontano não mentia,

Fiel amigo, no dono não mordia.

 

Bastaram alguns dias, e surgiu a esparrela

Longas corridas de Trás-os-Montes ao Algarve,

Bem trajado, com ar sério e grave

Em lugar do tacho, prometeram grande panela,

Maravilhados ficaríamos com ela.

 

Menos tarde que cedo, se criou a convicção

Em lugar da desgraça

Criaríamos a ilusão

Que seria por rua e praça

Encontraríamos a salvação.

 

Há coisas que não rimam, e esta uma delas,

A ilusão continua um idílico castelo,

E porque não fazê-lo,

Estas laranjinhas com umas morcelas,

Dariam um prato consistente e belo.

 

Rápido dessas ameias, se viu esfumar tal certeza,

O tempo carregou de cinzento o céu,

Não seria como num florido sonho,

Que “aquilo que eu proponho”

Seja apenas engano meu.

 

Em vez do suculento prato

Na mesa comprida, as caldeiradas

Nomeações (desculpem, feijões) nem por isso

Em vez da rodela do chouriço,

Serviram unhas rentes cortadas.

 

Do salivar de imaginar,

Surgiram as dores de barriga

Gente a vomitar pelos nervos

De gente nobre agora servos,

No trabalho, não há lugar à fadiga.

 

Não há forte rima que resista

A um logro tão forte e duro

Há um plano do infame artista,

Se tal arte não almejei, fui burro,

Do longo caminho fiz curta vista.

 

“Se com saber, arte e manha,

Se enganam alguns parolos,

E com hábil matrafice tamanha

Usando de mais façanha,

Intrujaremos estes pobres tolos.

 

Se à minha esperteza, juntarmos esperteza tua,

Seremos os tais espertos,

É verdade nua e crua,

Eles estarão mais facilmente abertos

E não nos porão na rua.

 

Contaremos com presidente do laranjal,

De muito saber ajuntado,

Ele tem forma eficaz tal,

Com o povo entretido e preocupado,

Que conseguimos, em luta brutal.

 

Os velhos contra os novos,

Os novos contra os pais tesos,

Só nós não ficamos surpresos,

Vai real bagunça naqueles coitados tolos,

E na pobreza, o que merecem, vamos pô-los”.

 

E aqui chegados, a dureza dos tempos aconselha,

Que fria cabeça melhor resolve,

Dias melhores é coisa que não tarde volve,

E de quintetos a poesia já se afasta,

Perante esta crença tão nefasta,

Que a austeridade ainda não basta.

 

Não é preciso grande luz,

Para leste concluir,

Que no timbre em que a conversa pus,

Não conseguimos do clamor fugir,

Sextetos já não chegam,

Para da trama à indignação,

O espírito irá fluir.

 

“Crime”, disse ele, de voz altiva e atroz,

“Desde Adão que tudo é errado,

Só o algoz chicote corrige”,

Não suporto mais este jugo danado,

A dor inútil que inflige

E aquilo que a gente finge

Que não dói, mas dói,

E a cabeça mói, coelho este, danado,

Que não me apareça pela frente,

De forma intransigente, lhe gritarei ao ouvido,

Que, além do nariz comprido,

Pelo peso na consciência dessa mente,

Terá um envelhecer sofrido.

 

Tordo, rola, galinhola ou perdiz,

Tudo tem na caça, sua era,

Não é o povo que diz

Que chegou a hora feliz,

Se curvem os fugidios coelhos,

Para lhe atirar, certeiro, de joelhos.

 

A minha espingarda palavras dispara,

Que se esfumam pelo ar

Da indiferença do animal,

De humano não tem par

Nem foi criado para tal.

 

Arma minha a palavra,

Não te curva finalmente,

Não és dos que tem na mente,

Que dignidade não é indiferente,

Antes calada que aguente,

E solta, não a calarás para sempre.

 

Razões de sobra terás,

Para de trás dos montes não sair,

Não vá o diabo tecê-las,

Alguém marcado por estas querelas,

Fora de juízo perfeito,

Que já não tem espaço para o jeito,

Fará de modo insuspeito,

Aquilo que o roedor teme sofrê-las.

 

A desordem substituirá a ordem,

Naquela trémula figura,

Após o ar elegante ficará na carcaça a finura,

Chumbada de palavras que cortem,

Alguém que nunca pronunciou ternura,

Doçura,

Antes “ruptura, força dura”,

Implacável perante quem está indefeso,

E à desgraça é preso,

Por quem não envergonha a psicológica tortura.

 

Há já quem diga, fartos de tal fado,

Que não há na sorte nada perfeito,

Que na escolha da sorte, no meio deste gado,

Tão nefasto é o efeito,

“Volta Sócrates, estás perdoado”.

 

A vingança, essa será natura,

Não será pela humana mão,

Depois de tanta fartura,

E perante tanta tesão,

(leia-se: Força, intensidade, ímpeto)

Ficará a triste alusão,

Que foi um mau bocado que passámos,

Depois de tanta esperança,

Que com Abril rejubilámos.

 

Com este estado de alma,

Na testa a mão serve de pala,

Olhando o passado, pesadelo,

Afagando o cabelo,

Nada merece perder a calma,

Em breve, ao povo chegará a fala,

E diremos o que justo é,

Se alguns quiserem, com fé,

Caçado entre montes,

Nas covas,

Aprenderemos a cozinhar

Coelho à Torres Novas.

 

Para quem não sabe, que saiba,

Que de feijoada se trata, com tenros grelos

À mistura,

Não é coisa dura,

Bem suculenta, porventura,

Com piri-piri ou pimenta,

Assim se cumpre a natura,

Cada macaco no seu galho,

O coelho só no tacho, pérfida criatura.

 

O tempo tudo ensina,

O tempo tudo apaga,

Não alimentes tanta sina,

A tua mão não me afaga,

Teu hábito, chacina

É alimento que agrada,

Do coelho não se faz canja,

Nem caldo que se sirva,

Destes tiranos, a sociedade tem uma franja,

Que na História de um povo não clama,

Registo teu, só na lama.

 

Gato preto da nossa vida,

Qual coelho escondido e assustado,

És para nós a ferida

De uma chaga maior,

De tanta verdade mentida,

Não prolongues este fado,

Sai desta coutada que não amas,

Que anseias envolta em chamas,

Para voltar a desabrochar,

Assim não é de modo digno cantar,

Nossos versos de amor,

Dá-nos esse favor,

Vai, e leva contigo esta tróica,

De males insanos e interesses profundos,

Liberta-nos desta andança paranóica,

Queremos partir para outros mundos.

 

Outros figurões agora poupados,

Histórias terão deles,

Não serão só peles,

Das maquinações dos visados,

Há muito tempo avisados,

Que da sorte não hão-de fugir,

Será a natureza também

Porque tristes figuras destas não mais seguirão,

Para os lados de Belém

Não esqueçamos que ali bem perto,

Para os lados do Restelo,

Os velhos pronunciaram desgraça

Por todos os lados do Além.

 

Avisada anda a plebe,

Que no logro, à primeira,

Não tendo jeito nem maneira,

Não há forma de não cair,

À segunda,

Já dor profunda,

Se lhe prometerem a melhor lebre,

Haverá, ainda assim, gente a sorrir,

À terceira, senhores espertalhaços,

Não façam de nós palhaços,

Se tiverem por onde,

Vão lá morrer longe,

Nem que da lepra sofram,

Batam a outras portas

Que agora vocês servem,

Decerto não se atrevem

A pedir-nos mais migalhas,

Da vingança espalhaste a cultura,

Esta é a cova que agora talhas

Para a tua sepultura.

 

Falta cumprir outro objecto,

Outro tipo de democracia,

Porque esta faca do bolo,

Para o outro lado tende o corte,

Com hábil mão, e forte,

Que a fatia da aristocracia

Tem mais largura que a tua,

A mão que trabalha nunca está nua,

Isto da partidarite,

Dizer que não tem artrite,

Que sofre de longa saúde,

Chegará o dia em que a luva cairá,

E justiça justa se ouvirá,

Em rara e festejada atitude.

 

LUMAVITO 9/06/2013

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publicado às 23:08



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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