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CONFRARIA DOS PASTÉIS

por avidarimar, em 12.04.15

Certa velhinha distinta

Sábia, respeitosa, honrada

Olhar perdido na calçada

Húmida e escorregadia

Seguia leve, lenta

Escorregando os pés

Pelo ondulado do carril

Com distinta mania

Do eléctrico que já não rola

Já do tempo do novo estado

Julgando ser o dito amarelo

Que ecoava sonora badalada

Accionada pela corda de cabedal…

“Tlim……Tlim……”

Avisava rouca voz ensopada:

“O destino da viagem é a calçada do amparo

Sou a Maria do laranjal

Tenho bancos de pau

Costas de palha entrançada

Guarda-freios engravatado

Eu sou a carreira Madona

Que sobe e desce em cordel

Até à fábrica superior

Qual símbolo da economia

A fáfrica do pastel ”

 

Surpreso, olhei à volta

Perguntei-me se

Frente ao sessenta e nove daquela porta

Estaria em juízo meu

Belisquei-me, roí as unhas

Não seria que tu punhas

Muitos cheirinhos em café meu

Seria isto bebedeira minha

Tal era a pedrada que vinha

Daqueles ares do céu

 

Parei

Não pode jogar

O baralho todo

Ou sou eu quem endoideceu?

Ou já teria queimado

Os fusíveis da mona

Ou ela não teria a ousadia

De na rua gritar

Que era a carreira madona

 

Segundos graves estes

Não me tinha apercebido

Que a velha de tal sorte

Dançava no meio da estrada

Collants até ao pescoço

Até ao umbigo o decote

Gestos largos e bruscos

Qual dança orquestrada

De forma tão igual

À da grande cantora      afinal

Processo de loucura esta

Tal era aquela festa

Que punha o mundo tão louco

Não seria assim tão pouco

Sinal de alarme então

Não é normal uso da razão

 

Aquilo não estava a acontecer

Eu que tinha traçado

Ir dar uma voltinha

Ver se melhorava

O estado de alma minha

 

Lesta, a “madona” parou

Mudou a música

Entoou a marcha nupcial

Trombetas afinadas e imponentes

Coisa de cerrar os dentes

Tal a cabeça fervente.

Encostado ao mais próximo portal

Daquele sessenta e nove

Daquela rua pendente

 

Olhei à volta, agarrei-me

Ao batente daquela porta

Não vá eu escorregar

Não aguente, e queime

Os neurónios que ainda tenha

Tal é a loucura que corta

A respiração ofegante.

 

Tentei perceber se respirava….

Pois….

Ainda mexo os dedos,

Não afastou meus medos

Tentei levantar-me….

Consegui

Estava quase ereto

Passe quase certo

E dali me pirava

Corri calçada acima

Calcanhares esfumaçando

Tal a ansiedade com que,

Coisa sem par

Me pusesse ao ar fresco

Daquela loucura por perto

 

Dobrada a esquina, abrandei

O caminho percorrido

A madona afinal, não correu

Aliviado, olhei ao meu lado

Ergui os holofotes, vi de relance

Que tinha deixado à ré

A Rua do Alucinado

 

Passo apressado

Não viesse a madona, outra vez

Repetir o estrago que fez

Bem dentro do meu sobrado

Procurei orientação

Olho em redor

Que seja lá qual for

Esta rua seria

Uma viela estreita

O fim da via por perto

 

Mais calmo

Vi que estava em cima  pedra direita

Letra preta

A Travessa do Aperto

 

Zona assaz, estranha

Em poucos metros palmilhados

Estranho ensaio da madona

Entre o aperto e o alucinado

 

Aliviado desta pressão

Entendi o cenário intrigante

Que levaria a cantante

Figura desconcertante

Não fossem as marcas do tempo

Dançando desengonçada

Ao sabor da brisa do vento

 

Já recomposto do susto

Acalmei

Ganhei coragem, voltei à esquina

Espreitei, e………

“sou a presidencial menina

Rara beleza e formosa

Quero dançar alegria

No meio daquele palácio

Isto não é falácia

O meu amigo presidente

Da fábrica dos pastéis

Disse que tenho jeito

Para o distrair

Muito ensaiar tenho feito

Não o vou desiludir”

Quedou-se, de novo, a madona

Não me sentia

Mesmo bem da tola

Era caso de psiquiatria

Não me acho quem se idolatra

Não encaixa, à distância

Poder sofrer doença da moda

 

Mas deve haver

Elemento intrigante

Toda esta palhaçada

Seria algo importante

Para eu não perceber

Coisa tão deslocada

 

Rebolei

Virei-me para o outro lado

Esfreguei os olhos

Acordei, alto bocejar…..

Han…….??? UUUiiii!!!!!!!

 

Salto brusco

Dei um pulo na cama

Questionei,

Onde está a madona?

 

Oh pesadelo

Gesto violento

Puxei com força o cabelo

Não fosse eu

Voltar a adormecer

E de novo,

Não voltasse a assaltar-me

Figura mais sinistra

Me entrasse pelo quarto,

De tal história    tão farto

 

Fiz a barba

Tomei banho

Não esquecendo tal sonho

Ou tormento, que medo

Eu que afirmava

Que medo nunca tinha!

Fui até à cozinha

Disse para mim

O pior já passou

Espírito este que ousou

Assaltar a minha mente

E pôr-me pela frente

Coisa desfasada no tempo

Tão ridículo momento

 

Frente à malga de leite

Juntei-lhe os cereais

Roí uma pera, uma dentada

De colherada em colherada

Lá despachava…..

Parei……

A madona disse que é a menina………

Que o amigo presidente……..

Queria para se distrair…….

Mas……..

Qual presidente?

Dos pastéis? Dos anéis ?

Das gravatas de nó arredondado?

De facto, …não bate a bota

Com a madona

Desculpem, a bolota, ou a perdigota?

Ou lá o que é

Já nada sei

O que sei é que a fulana

Falou nos pastéis!

Quais pastéis?

Não seriam eles

Parecidos com os fofos

De Belas?

Queijadas de Sintra?

Outra questão me assalta

Com tolos se enganam os bolos

Ou serão os lobos?

Bom……

Vamos a isto

Eu não vivo disto

A vida não se ganha assim

 

Quedado

Ouvi voz do Além

Qual sala para concertos

Sussurrar…..

“Não, não…..

Há gente que vive assim!!

GENTE QUE VIVE DA LOUCURA DOS OUTROS!!!

E também do trabalho!!!!

Ah pois é!!!! Oh Zé!!” (ao amigo António Feio)

 

Emudeci…..

Pressenti o fim

No coração mais apertos

Dei um murro na mesa

Fui respirar para o jardim

 

Vamos acabar com a história

Limpar esta memória

Que cindo discos externos

De quinhentos gigas

Não chegam

Pelo bem da minha saúde

Devo jogar à defesa

 

Corri para o carro

Atrasado

Por esta maquinação

Fui andando em função

Do transito, que demorava

Entupido por todas as vias

 

Decididamente...

Hoje nem uma acerto

Pachorrentamente…

Liguei o rádio

Música de fundo era

Remédio prudente

Elevo o som, estico o ouvido

Qual cartucho,

De ar insuflado

……e apertado……

PUUMMMMMMMM………..

Estoiro final

Disco mais recente da “MADONNAAAAAA…..”

 

Este mundo, remédio já não tem

Tudo combinado

Não é só tortura

É maldade grossa

Para que caia na fossa,

E não me aguente…..

 

Murro no “off”

Murro no volante,

Não fosse

Ela dizer que ia ensaiar a valsa…….blá……blá…..blá!!

Irritado

Buzinadela para aqui

Gritaria acolá

Encostei o carro

No primeiro buraco

Que encontrei

Subi apressado

Escadaria que se cruzou

Frente ao meu olhar

Onde ia ter, não sabia

Mas sabia que não queria

Ali ficar

 

Acendi o cigarro

Que não fumo há trinta anos

Esqueci o sítio do carro

Fui procurar remédio

Para tão vastos danos

 

As mãos tremiam, não era eu

Pronto, não vale a pena

Francamente

Já não tinha cabelo

Cabelo no chão às mãos cheias

Para quê o pente?

Deitei-o escada abaixo

Degrau a degrau

Virei à esquerda, à direita

Para o lado, atrás, prá frente

Já não encaixo

Com o lugar onde estou

Mais acima uma tasca

Tasca ranhosa, ainda assim

Entrei

Portas doidas, qual cow-boy

Alguém, minha triste figura rasgou

De frente, perguntou:

“Vem assustado?”

Quem…. Eu?....eu não!!!

O sangue parou, o coração não palpitou

Já não era vibrar de cordas vocais

Antes, voz embargada, trémula

As pernas vergavam

Não era eu, nãããooo!.. não era!!

Claramente

Algum demónio que me atente

tentei disfarçar                já gemia……

Alguém riu

Veloz mas parado

Gaguejei…

“Vai prá lupa do tio! “

Senti vago clamor

Lá longe, bem longe, muito longe

Um clamor ~a ~~nadar~~ no gás~~ do~ meu~~~~ cérebro~~~~~~~~!!

Balbuciei qualquer coisa

Que não tive capacidade

De entender

Seria pela idade?

O primeiro aviso do colapso

Que deixa para trás a realidade

 

Já   f~i~z t~r~a~m~p~a

Cala-te, não reajas

Não dizes coisa com coisa

De facto, tão estranha

Nunca me tinha acontecido

Não comer os pastéis quentes

Ainda assim, me dar

A volta à tripa

 

Implorei…

Posso ir à casa de banho?

“tenha cuidado, é ao fundo

Do corredor

Carregue no interruptor ”

 

Com um aceno, agradeci

Arrastei-me, perna apertada

Empurrão na porta, rangeu

Desapertei o cinto

Manobra complicada, tão demorada

Aflita, à rasca

A coisa estava mesmo torta

Mesmo à tangente

Fica melhor que “rasquinha”!

Deu tempo

Sentei-me

Elevei o olhar

Forcei…..

A sanita rangeu

O edifício tremeu

O mundo estremeceu….~~nuvens,~~~pressões altas~~~~e baixas,

Chuva, trovoada

Relâmpagos, raios e coriscos

Quase adormeci, pensei

Se não fosse isto

Dava-lhe uns chutos no cagueiro redondo

Um murro na tromba

a quem não tem vergonha

E de mim zomba!

 

Imprevisto! Fuga de gás

Coisa grossa atrás!

Fez-se luuuuuuuz!!!

A madona, tinha dito

Grande matrafona,

Que a Fábrica Superior do Pastel

Era ideia afinal,

Símbolo de exportação

De alvarinho, a exortação

O país vai crescer, suas dívidas pagar

Não mais cair em crise

Esta ideia de trampa

Trampa enchouriçada

Talvez assim, a salvação

Que se frise, que é de ideias destas

Que este cantinho vive e vence

Finalmente

Não rima, mas é feliz

 

Oh senhor presidente

Da Fábrica Superior dos pastéis

Bem perto da governança

Aconselhe-os, segrede-lhes

Não deixe cair tal cagança

Garantirá futuro nosso

Não nos faltará caroço

Ricos seremos

Quais povos do norte do tabuleiro

Felizes estarrecemos

Brilhante ideia esta

Agora é que, que aguente

Não há mesmo rima

Olha!, agora!, …..é assim, “pessoal”

Ainda assim é uma festa

 

Percebi algo

Algo que tenho percebido

Lembrei-me de palavras

Expressões, palavrões

Quintal, laranjal               Pastel

Confraria, associação

Doces e amargas

Palavras               Com e sem aparente sentido

Não

A palavra sem produto                 Escorrido

Do turbilhão de ideias

Neste mar de teias

Interesses

Em que és apanhado, surdo

Sem energias                    Mudo

Será?

Associação-confraria

Pastel sem quadro

Conteúdo sem sabor

Juraria

Este não é o mundo que quero

Não é aquilo que busco

Quais pastéis amargos

Azedos

Nos presenteiam modo patusco

Dêem-me antes encargos

Com esses encanto        muitos tenho

De onde provenho

Não baixo os braços

Todos eles          na vida                 eu canto

Grito

Chegou a hora

De arregaçar mangas, correr, berrar

Esta terra, se não é para todos

Se alguém tem que sair

Não somos nós que estamos a mais

Morrer                 JAMAIS

Rua com tais ditadores

Ditadores da democracia dormente

Dorida                  ferida

Haja quem enfrente

De frente            olhar fixo nos olhos

É de nós todos

De todos nós

R U A!!!

Q'esta casa não é tua!

 

 

 

LUMAVITO

20130614

XI

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publicado às 00:11



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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