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CABANAS

por avidarimar, em 13.04.15

Noites frias, longas noites,

Escuras, breu profundo,

Tempo longo, comprido, tristonho,

O escuro da melancolia, enfadonha,

A melancolia assustadora, escuro,

Sumiço de luz,

Coração sem chama, amedrontado,

Semblante carregado, empedernido,

Face medonha

Deste lado do hemisfério,

Deste lado do muro

Negro, escuro,

Onde a luz não tem efeito,

Corpo gélido, carcaça tiritante,

Chuva que trespassa a pele enrugada,

Negra, despida,

Passo esticado, sem força nem ritmo

Poça de água, guilhotina

Dos pés carcomidos pelo frio

Dentro de botas atoladas

Escorregam pelo lamaçal

Daquela terra ensopada.

 

Alma fria, ferida

Pela solidão do caminho

Pântano, charco

Que dá para o rio

Também ele, traiçoeiro pantanal,

Sem ânimo, e crença espremida,

Sigo perdido sozinho.

 

Bem ao fundo, bem longe

Onde muitos passos, pelo visco da lama

Passos lentos, sofridos

Não aproximam,

Cansam, esgotam, doem,

Motor principal, sem chama

Arrasta este resto de gente

Pouco andante

A caminho dum lugar distante.

 

Garganta condoída

Que nada clama,

Mal boceja

De fraqueza extenuante

Já não pensa, letargia,

Olhos quase apagados,

Só sonha

“Mais além,

Um banco, uma cama,

Água quente”, delírio,

Antes duche diluvial

Até aos ossos

Atinge as entranhas

O ventre, o alto e o baixo,

Também,

Soprado pela rajada de ventos,

Tirita, cambaleia,

Treme, estremece

Não há cara, nem linda nem feia

Que suporte o cansaço

Pingos grossos, disparados

Contra a tez desprotegida

Desânimo, quase desfalece,

Das tripas busca forças

Se da força se faz tripa

Se da dor se faz ânimo

Se por linha torta

Alguém caminha direito

Resistir até à última gota,

Se da gota há alguma final,

Fonte dentro do peito

Em conluio com o cerebral.

 

Passo a passo, cambaleante

Dura jornada, encharcada,

Pé vacilante pisa firme,

A porta da cabana é já ali,

Mais um esforço

Uns tantos passos

Apressados, trémulos,

Mão à frente

Busca onde se agarre,

Se aguente e ampare

O resto daquele corpo

Quase rastejante

Sorriso amarelo regelado nos lábios

Não interessa direito ou torto,

Empurra a porta, rangida,

Ergue o pé, último esforço,

A chuva já canta de fora,

Sibila o vento,

Forço, e fecho a entrada,

Essa fronteira

Que separa a intempérie,

Do aconchego dum pedaço coberto,

Apenas uma porta de madeira

Que divide o conforto

Do arrepio, granizo,

O desagrado em série.

 

Banho reconfortante

Em três tempos

Deixa outro ar, disposição

Reconquista por diante

Enrolo-me no toalhão

Passo pela cozinha

No meio da mesa

Da fruteira, uma fruta,

Duas dentadas,

Sentado no sofá

Liguei o televisor

Canal ao acaso, aguardo

As novas que já são velhas,

Os mesmos temas

“o nosso presidente, super ministro,

Nada se passa”,

“O nosso primeiro, está tudo bem”

“o vice primeiro, linha vermelha dos reformados ”

“o governo requalifica, despedindo”

“o governo recalibra as medidas”

Tudo isto em prol dos mal amados

Num grupo de fantoches desgarrados

Como comadres desavindas.

 

Lesto, num sobressalto,

Uma dor, desconforto,

Dum momento para o outro

No consolo duma cabana

Para trás ficou muita gente

Muitos homens, mulheres

Jovens e crianças

Sem caminho para o abrigo

Sem cabana do refúgio,

Entranhados nestas andanças,

De esquecidos, os sem abrigo,

Sem alguém que dê a mão,

Apanham chuva,

Impele-os o vento,

Granizo não os poupa,

Agasalhos, coisa pouca,

Comida quente, buscam em vão,

Restos nos caixotes, desperdícios.

 

De seguida, algures

Voz grossa e lesta se ergue

“não trabalham, não fazem sacrifícios

Como nós, gente honesta, laboriosa;

é natural que a vida lhes dê esta forma penosa”.

 

Mundo cão este,

Que não vê nos outros, dignidade

Oportunidade de demonstrar

Que lhes falta oportunidade

Mostrar que o vendaval

Pode virar noutro sentido,

Como os ventos,

Também muda,

E que um coração ferido

Pode ser feliz noutros tempos.

 

Depois de natal modesto

Parco de meios, não somámos outros,

Eu que me sentia

Atingido pela má sorte,

Levantava a voz em protesto

Por esta gente, verdadeiros carniceiros.

 

Olho-me com tanta mordomia

Na minha cabana

Há uma casa para banhos,

Águas quentes,

Com toalhão pessoal

Escova de dentes

Cozinha com fogão

Talheres na gaveta do meio

Toalhas e avental,

Pratos de diversos tamanhos

Tachos no armário de baixo

Sala com sofás, lareira

Coisas reais, sem imaginação.

 

Quantas pontes, viadutos

Fábricas, armazéns abandonados

Barracas de tapumes, telhados de lata

Tantos outros produtos

Desperdícios aproveitados

Para o conforto(?) de quantos?

Quantos engrossaram estas fileiras

Neste mesmo natal

Neste mesmo país

De novecentos anos, nação,

Foram atirados para a rua,

Debaixo de uma ponte

Com que cama, com que roupa

Higiene ou refeição?

 

Viro cara ao lado,

Calo este fado?

Escudando-me na cortina

Da hipócrita impotência,

Que sozinho, o mundo

Nada mudo.

Não aceito a paralisia,

Anseio erguer a voz,

Denuncio esta injustiça,

Gente de trajes formais,

Predadores bem falantes,

Conseguem chamar ao imposto “poupança”

Ao despedimento “requalificação”

Carrascos da esperança.

Não viremos a cara à adversidade

E denunciemos bem alto

Esta matança.

 

LUMAVITO

04/01/2014

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publicado às 21:28



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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