Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


AS CORES DA VIDA

por avidarimar, em 14.04.15

Deambulei como noutros dias

Rumo a meios   Paisagens           Em que o verde é cenário

E os regatos escorrem pelas colinas

Os tufos de erva crescem frondosos

Como crescem os rebentos das árvores

Agarrados aos ramos que suportaram despidos

A queda das folhas         O rigor do Inverno

E a solidão dos dias e noites pardacentas

 

A passarada reaparece Saltita pelos ramos e rebentos

Cantarola            Repete o mesmo refrão             Espaçado por cada voo

O sol rasga timidamente              Por entre os troncos eretos

Rugosos              Impávidos          Indiferentes

Já que ali estão                                Para dar corpo à vida

Que entra por todos os lados    Marca presença imponente

Algumas com séculos    Naquele lugar   Sem cansaço.

 

Ovelhas e cabras desfrutam do manjar à disposição

Viçosa   Húmida                               Verdejante

Escorre pela goela          Remói

Na ovelha cresce a lã     Na cabra os chavelhos

Que pelejam nas marradas

Na cabra como na ovelha            Cresce o amojo

Ao fim do dia dão-nos mais leite

 

Piso a terra         salto a erva        Paro      Contemplo

E o tempo passa                              E não damos pelo tempo que passa

E a memória da tasca     que fica nos contrafortes da serra

Vem à baila        E baila no espírito de transeunte

Deslizo encosta abaixo                 Com a sacola às costas

Nem me lembro o que lá vem  Não recordo o que tem

A fome passou despercebida    A memória visual

Está mais rica

 

À porta da tasca cinzenta            Cinzento escuro

Tom predominante        Nas paredes      No chão

Nas pessoas à entrada                 Nos tampos das mesas

Toalhas cinzentas            Pratos baços      Copos baços

 

Nesta tasca cinzenta      As pessoas à entrada

Trincam pevides              Tremoços           Mascam devagar

Como se o tempo assim              Corresse mais devagar

Balbuciam pouco mais  Que sílabas impercetíveis

Olhar esparramado        no copo de tinto

À ponta da mesa             Logo à entrada

E as pessoas à entrada regurgitam azedume

O boné cobre a careca  E a mão coça por cima da boina

Por cima do cabelo que já não há

 

Na tasca cinzenta            No sopé da serra

O sujo das paredes        E do chão

Não se nota       Porque as paredes são cinzentas

E a sujidade sente-se    Mas não cheira

Porque o cheirinho do piano no churrasco

Sobrepõe-se ao fedor do chão

E à gordura das paredes

Do carvão incandescente            Que grelha o robalo

A dourada          As febras            E a espetada mista

 

Dou por mim já sentado              frente ao pires de azeitonas

Desfio pensamentos dispersos

Descasco imagens de há poucos minutos

Onde a sujidade não se nota

Os pensamentos correm rápido

Mais rápidos que a água do regato

 

Agora parado    Estacionado naquela cadeira

Começo a desfiar o tempo

Aquele tempo que já passou

E permanece enraizado em imagens

 

Feitas as contas

A minha história tem setecentos meses

Menos doze dias

Ou doutra forma             vinte e um mil

Duzentos e noventa e cinco dias

Depois da data em que                                Para mim

No mundo se fez luz

Uma luz que continua acesa      Crepuscula

E que dá gozo ver alumiar O cinzento da vida

Pra que ele fique menos baço

 

Os macaquinhos do meu sótão

Saltitam alegremente de ramo pra ramo

De árvore pra a seguinte

Mantêm-me meditativo

Sinto que nestas quinhentas e onze mil

Horas de vida    E mais algumas

Consegui aprender        Que o melhor proveito da vida

Observando os pormenores

É todos os dias correr

 

Repentino          Voltei à vida       Com o bater do prato    À minha frente

E o forte odor da costeleta de novilho  Cor acastanhada              Mal passada

Salada de verde e vermelho vivos          Batata frita amarela dourada

E no copo            Bem tinto

 

LUMAVITO

7/2/2015

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:48



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Abril 2015

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930

Posts mais comentados



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D