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A CRUELDADE DO IMPÉRIO NUMÉRICO

por avidarimar, em 14.01.16

Um        Dois       Três

Um        Três       Cinco...

Números            Algarismos

Oitocentos   e     Vinte    e            Seis

Gestos

Oito       Dois       Seis

Repentinos

Olhares                               Sinais    Interrogações

 

Sessenta e     Seis   por      cento

Um cálculo

Seis        Seis        Percentagem

Ajustada à miséria

Quarenta e Nove

Sensação de arrepio

Quatro                 Nove

E os pelos dos braços

Eriçados

Porco espinho

 

Dezasseis ao quadrado

Gritaria

Um        Sete      Expoente            Dois

E ninguém se entende

Zero                      mesmo   Zero

O objetivo

Não se cumpriu

 

Vinte e seis ao cubo vezes

Abrir parenteses

Quatro mil elevado a cinco

Fechar parenteses

A dividir por um

Ao quadrado

A senha dourada da sorte

Vezes a raiz quadrada de um

Calhou a outro

 

Do tempo da pedra

À volta da roda

Pelo tempo do ferro

Do tempo das máquinas

Brotam os robots

Como coelhos da toca

 

Dezassete e onze

Números primos

Mas não de família

Ordem de urinar

Porra

Deixem-me mijar calmamente

E à minha vontade

Perdi o filtro

E a mistura do combustível

É cada vez mais pobre

Não lhe faltando octanas

 

Se sonhar ser um violino

Toque o hino esmagado

As coisas são assim

A vida é assim

Só os números têm razão

 

Produtividade

As mães portuguesas

Pouco renderam

Apenas pariram

Oitenta e nove mil

Em dois mil e quinze

E aumentou o défice das contas

Dos camelos para trabalhar

 

Trinta e um

Mais um que não pagou ao fisco

Três                       Um

Rico    trinta e um

Tramado

 

Trinta     e        Nove   e          Meio

Ordem de adoecer

Três       Nove     Vírgula                 Cinco                    Zero

Sem remissão

Febre    Diarreia            Vómitos

 

Mil         Novecentos       e             Noventa

Fantástico

Um                        Nove                    Nove                    Zero

Mil       Novecentos e       Oitenta e          Três

Brutal

Um                        Nove                    Oito                       Três

Mil         Novecentos e   Cinquenta e       Oito

Persistência

Mil novecentos e cinquenta e seis

Fantasia

Um        Nove     Cinco     Seis

Tempo                 Efémero

Evaporação        Erosão                  Desgaste

Mil novecentos e setenta e Nove

Conquista

Um        Nove     Sete      Nove

Perseverança

 

Pausa

….

Para contar

……..

 

O carro custou

Dezassete mil quinhentos e oitenta e um

Em dois mil e oito

E percorreu

Cento e noventa e cinco mil e setecentos

 

E a fé

A fé mede-se em euros

Ou em dólares

Quem sabe se em barris de brent

Essa fé no precioso metal

Que tudo regula

E nada germina

Na sua ausência

Não tem clorofila

 

A raiz quadrada do desemprego

Resume-se a meros

Três virgula cinquenta e dois por cento

Isto porque já não contam

Os que já não recebem

Quatrocentos e dezanove euros

 

Se chora

É emoção

Se ri

É parvoíce

Condenado ao abandono

Pelo meritíssimo juiz do tribunal

Das contas ridículas

E dos números vigarizados

 

Tantas contas

Vazio de emoção

A não ser de frustração

Cheira mal

Petrifica

Cada pensamento

Tem um número associado

E sinto-me código de barras

Só os sonhos não são divisíveis

Apenas exponenciáveis

 

 

Finalmente fez-se luz

E os mercados têm arreigados sentimentos

Quer pela instabilidade da economia

Quer pelas bolsas

Que vão tendo consciência

Do que é importante

Nesta cruzada de amor eterno

Pelo dinheiro

 

Nobre BPN que nos enterraste

Amigo BES em agonia irreversível

Saudoso BANIF que explodiste

Só vós sabeis

Os sentimentos genuínos

Dos valores mobiliários

E o quanto é importante

Que haja milhões de tansos

E idiotas

Que tudo aceitam

E  tudo pagam

 

Geometricamente

Um seno

Ou uma cossecante

À tangente

E teoricamente um Thales

Um Arquimedes

E nem sempre a vida

É uma regra de três simples

Talvez muitas mais

E bem complicadas

Tamanha poluição numérica

Numa existência tão terrena

E árida de emoções

E a sensação de ser EU

É tão rápida e amarga

 

 

Cada movimento obedece a um cálculo

Merda…                              de vida

Feita de autómatos

E as pessoas que ousam pensar

Estão em extinção

Reproduzam-se

E cultivem-se

Talvez assim sejam menos manipuláveis

 

Afinal

Os sonhos são mensuráveis

A avaliar por este meu distúrbio

Que encerra com uma horrenda dor de cabeça

Que orça em três mil miligramas de paracetamol

Portanto

Os sonhos

Avaliam-se em quilos

 

Indignos

São os números que nos regem

Estas correntes que nos amarram

Os que os manipulam

Pelo seu mesquinho interesse

 

Soberba

Só a consciência

De viver digna

E pacificamente

Connosco próprios

 

 

LUMAVITO

20160113

CLXII

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publicado às 22:16



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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