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CABANA

por avidarimar, em 23.04.15

A casa de madeira que se constrói

Com as cantigas assobiadas

Junto ao rio

O lápis traça o sentido e o rumo

Do corte da tábua pauta de música

E os filhos a crescer

 

Distribuem-se seis cotovias

Em cada árvore             em sentinela

Um rio sem cabana corre sozinho

A janela espreita os peixes do jantar

A horta humedece as palavras cantadas

Com o vinho da encosta o espírito espraia

O corpo tresanda a suor da balada

O trecho rasgado é escrito pelo arado vadio

E a grade rasoira a terra poema

Os choupos galgam as margens

E espreitam o sol lá do alto

 

O rapaz foi embora

Instalou-se noutra montanha

Bem pra lá das terras de "a salto"

Olhou os socalcos e escolheu

O que parecia o melhor

 

A água corre bem abaixo

Num outro rio vida que corre só

E o físico mediu forças

Cortou três árvores

As mais grossas e desempenadas

Que encontrou junto ao rio

Que corre pra outras terras

 

A casa vai a meio

O telhado lançado

Chegou à janela

Falta fechar

O serrote outrora parado

Agora corta cansado

Vai comprar a lima de afiar

 

Quando a fadiga o consome

Pega na cana de pesca

Que levou da cabana

E já pesca sozinho

Agora escolhe as sementes

Já cultiva a terra

Da horta cavada

 

Uma outra luz pessoa

Que se desloca vigorosa

Desce o rio com o temor

De quem não conhece o caminho

Instala-se nas dunas

Que olham rio e mar

 

Já não corta árvores

E o betão é mais firme

Os exames e diagnóstico

Tomaram-na a jusante

 

A cabana sem filhos apodrece

E o sol apaga-se

Quando acontecer

Vou procurar outro sol

Junto ao rio talvez chegue ao mar

E vou prendê-lo numa árvore baixa

Os pinheiros roubam-me a luz

 

Na noite se os morcegos voarem

A caverna fica vazia

Mas não… não serve

Cheira a trampa

Queima as mãos

Recoze os pés

Fico com náuseas

As plantas não têm vida

Esmorece a vida rio

No caminho minado

Os pulsos estão atados

 

A cabana escureceu

Não tem o mesmo esplendor

À volta                  A erva cresce

Torna-se mato denso

O caminho antes definido

Sucumbe à força do caniçal

Já dificilmente transpõem

A distância para a porta da cabana

Entreaberta       Abandonada

A janela está partida

E os pássaros apreciaram

Estão em casa

 

A lua      a minha lua

O meu meio queijo        Meio seco

Em tempos de minguante

Continua a brilhar

Ao lume grelhando o peixe

Com a madeira velha da cabana

Os pratos            Esses reluzem sempre

 

Por mim              Gosto do sol posto

A penumbra fascina-me

Enquanto escuto o movimento das águas

Que descem no rio         A caminho do mar

E as águas salgadas se tornam

Esse rio onde não é mais rio       Cheio de vida

Dilui-se indelével

Onde as águas vidas se sepultam

Na imortalidade

 

LUMAVITO

23/04/2015

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publicado às 23:24

SARA NUNES

por avidarimar, em 23.04.15

Nunca é tarde

para estar com alguém

Se não o fizemos antes

não me desculpo, porém

querida Sara, sem delongas

sem perda de tempo

que o dia de ontem

te fique de memória

pelos prazeres da vida

Cada dia mais uma vitória

nesta viagem

movida de alento.

 

 

LUMAVITO

21/04/2015

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publicado às 23:02

SUFOCO

por avidarimar, em 21.04.15

Neste final de tarde de Abril

Tão atraente que é a Primavera

Os pólenes exercem a sua função

Vou correr como gosto

Antes que chegue o Verão

 

As pernas ficam trôpegas

O coração acelera

A força esvai-se

A máquina espasma

Já não dá pra gritar

ma.l..d...i..t….a      a…..s…...m…....a !!

 

LUMAVITO

21/04/2015

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publicado às 09:41

HÁ DINOSSAUROS NO PARQUE DAS NAÇÕES

por avidarimar, em 19.04.15

Há dinossauros a chegar

Vêm lentos        deveras lentos

Vêm por mar

Acocoram-se entre os caniçais

Estão sedentos

Os animais

Encorpados de pau seco

Carcomido pelos tempos

 

São monstros verdadeiros

Que viveram na floresta

Passou a sua época

Largaram os outeiros

Desceram o rio

Com a carcaça oca

Seus cascos deslizaram

Com o que resta

 

Ficam nas areias

Até que as águas do Tejo galguem

E as margens fiquem cheias

Que as lamas e as areias

Os amarrem      E os afoguem

 

LUMAVITO

19/04/2015

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publicado às 18:02

ALGOZ

por avidarimar, em 18.04.15

Porque me rasgas

Com esse olhar lancinante

Sinto-me esvaído

Sem ponto de apoio

O rubor na face consome-me

O coração quer saltar fora

 

Poupa-me a tanto mau estar

Mata-me se quiseres

Mas não me faças sofrer tanto

Se não me deixas gritar

Eu rebento…

 

LUMAVITO

15/04/2015

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publicado às 23:43

FOME

por avidarimar, em 18.04.15

Na ânsia de a matar

Rasga-se com os dentes

A fruta roubada do pomar

Lusco fusco        escondido

 

Cada dentada é um verso

De um poema mastigado

Tirado dos caixotes

Sem notar

E o peixe era só espinha

 

Amargo é constatar

Que o osso foi triturado na boca

Com um travo suculento

Lambiscando o sabor da carne

 

LUMAVITO

18/04/2015

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publicado às 23:34

LÁGRIMA

por avidarimar, em 18.04.15

Cresce um vulto

Lento e arrastado

A caminho da porta

Baço      pálido   roto

Olhar fixo no chão

Escorregam

Duas lágrimas amedrontadas

Na pele engelhada do rosto

 

Gritar…

Já não alcança

 

Brota-lhe tremido do fundo

Chorar                  envergonhado

É a única solução

 

LUMAVITO

15/04/2015

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publicado às 00:15

TALVEZ EM SETEMBRO

por avidarimar, em 17.04.15

Nas dunas fustigadas    junto à praia

Foge-me o pensamento

Levado pelo vento norte

Levita nas águas misteriosas do mar

Até desaparecer no horizonte

 

Talvez o surfista me empreste a prancha

E me ensine a navegar

Para o buscar lá longe

Onde o imaginário bebe da fonte

 

Mas só se o tempo estiver de bonança

Vou conseguir dar volta ao mundo

E encontrar a torrente da mudança

 

Por cá

O desânimo inundou-nos

Os novos foram em busca da esperança

Que aqui lhes saquearam

Tornando a sorte uma miragem

 

Por cá

Só os quarenta e outros entas                  Ficaram

Uns sem trabalho

Tantos outros sem emprego

Uns engordam a estatística

Outros nem contam

Tratados como trapos   empecilhos

Os velhos arrastam-se pelos cantos

 

Talvez

Talvez quem sabe se em Setembro

Os que são velhos com quarenta

Talvez em Outubro

Quem sabe se os sorrisos

Não rasgam a vergonha que transportam

Talvez os jovens que emigraram

Talvez eles voltem

Ou não…

 

LUMAVITO

14/04/2015

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publicado às 23:47

POEMA RASGADO

por avidarimar, em 16.04.15

Julgava-me perdido

Na selva dos choros ácidos

Não fui eu que fugi

Deixei-me ir       resvalando

 

Penso um rio e um cavalo

Às vezes fogo   tantas vezes lama

Agarrei-me às paredes ténues do êxito

Fui arrastado na enxurrada

De lobisomens e vampiros

 

A tortura é infame

Sugam                  sorvem-me o sangue

Que se arrasta nas veias ressequidas

Do trânsito citadino

 

Seco os pensamentos desventrados

Numa encosta soalheira              abrasadora

E rasgo no chão o poema

Das palavras agrestes

Do xisto estéril da pedreira

Sei do marasmo latente

Na melancolia encarcerada

 

LUMAVITO

13/04/2015

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publicado às 23:15

FAINA

por avidarimar, em 16.04.15

Nos sulcos do mar do teu cabelo

Um bote cruza as ondas agitadas

Na tua face

Um olhar fugidio

Consome os gestos perdidos

Da aurora boreal

 

No piano do teu peito ofegante

As teclas rangem

A melodia das gaivotas

Que esvoaçam em redor das redes

Prenhas de peixe

 

As tuas mãos estão mobilizadas

Tensas                 Trémulas

Aguardam qualquer coisa que lhes escape

E lhes dê fruto                  de tanto esforço

 

E os teus pés

Pisam as cordas da viola

Pasmada da violência da faina

O som abafa-se                               no cansaço

 

As canastas estão cheias

E a orquestra parou

Escuta-te

Vê-te consumir o tempo

Esse tempo que nos falta

Mas não faz falta

Para estarmos…

Grito de espanto

Saboroso este viver

Ver desligar a luz do sol

Finda que está a esfrega

E o teu corpo ensaia

A agitação das águas

 

E começa a dança            da tua silhueta

Pelo meio da refrega

Sorrateira

A penumbra toma conta do momento

Porto de abrigo

Onde roçam os cascos da fadiga

Os lençóis escondem a nudez

Dum mar profundo de segredos

Misterioso é o sono

Balouçando nas águas da bonança

 

LUMAVITO

09/04/2015

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publicado às 22:58

ALIVIADO

por avidarimar, em 16.04.15

Sentado ou de cócoras

Alivio da pressão

No centro comercial

Ou algures pelo campo

Fugindo à confusão

 

É primário           por isso vital

Como é comer e beber

Presta-se ao modo informal

Descer as calças pró fazer

 

Estranha forma de libertação

Prazer picante se obteve

Deixar atrás a carga em ebulição

Largar o poiso onde se esteve

E ficar bem mais leve

 

LUMAVITO

08/04/2015

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publicado às 22:52

SEMENTES DE ABRIL

por avidarimar, em 14.04.15

Sentado              esquiço uma enxada

Para cavar umas palavas              enterroadas

Assisto ao nascer da alvorada

Aguardo a manhã fresca da horta

Para regar a semente do poema

 

Lanço o adubo na terra austera                da dor enquistada

Sacho a página engelhada da sebenta

Queimada pela torreira do sol

Aleiro as ideias perfiladas do momento

 

Apoio-me no calheiro sedento

Como uma bucha            De acentos tónicos

E pétalas de rosa             que guardei na lapela

Bebo água gelada           do poço da inspiração

E aguardo fixamente     o despontar dos acontecimentos

 

Hoje é Abril

E na horta           florescem as cores duma revolta

Corro a Santarém            espero paciente

Ver sair os carros de combate                   e os soldados

Ver brotar nas armas o poema

Com o cravo ataviado                   no metálico negro da espingarda

A arma que conquistou a liberdade

 

Abril é hoje

É sangue que corre nas veias de quem sonha

Abril é o voo rasante da gaivota

Que ecoa na Praça do Comércio

É ave veloz modo picado

Subiu ao Carmo                               Ver partir a ditadura

 

Abril é ponto de exclamação

Da coragem de Salgueiro Maia

É o grito que corre nas gargantas sequiosas

Abril é o jardim florido da esperança

Abril cresceu e é adulto

 

Querem-no matar          Sem que ninguém note

Basta não o tratar

Recorrendo à ideia apregoada

De que a água não chega a todo lado

Dizem que Abril se celebra só na rua

E não na casa da democracia

Por mim              vou regá-lo todos os dias

 

Para os que não o viram nascer

Nem viveram os traços do medo

Não sentiram a dor profunda    o estado de miserável pobreza

Para os que não souberam as marcas

E os nódulos da ignorância

Foram quarenta e dois por cento de analfabetos

A cultura ao nível de lixo

Como classificação fidedigna     de agências de Rating

 

A saúde em estado mórbido

Só acessível a meia dúzia             dos donos do país

Para a gentalha                                comprimidos para a s dores e febre

Quando muito  quando cadavéricos

Umas chapas aos pulmões

 

Aos que não sentiram na carne

Na alma de quem não se verga

Aos que hoje sentem outros idênticos

Como se fossem os mesmos sintomas

Os tempos não são os mesmos

Mas os processos não moram distantes

A esses                                eu hei de cantar

Não calo o aviso

Que para chegar a um pequeno ditador

Bastar dar poder a um remediado

Coelho renascido

 

Aos que agora se sentem injustiçados

E oportunidade é emigrar

Direi que vale a pena parar

E perceber

Que compensa saber Abril

Sentir a sua origem        conhecer a sua espécie

Alimentá-lo

Fonte de inspiração pra muitos

A ele

Todos devemos a liberdade

 

 

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publicado às 23:04

INFIÉIS

por avidarimar, em 14.04.15

Doem-me as palavras

Que me atingem de arremesso

Toldam-me as ideias

Que são vendidas a qualquer preço

Choro o despudor dos gentios

Que por uma casca d’alho

Se viram do avesso

 

LUMAVITO

09/04/2015

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publicado às 23:02

RAPSÓDIA OBSESSIVA

por avidarimar, em 14.04.15

Desponta o sol pela matina

Rasgando a força da neblina

O dia despontou risonho

Evoluiu rapidamente

Com aspeto bem mais medonho

 

Das nuvens e do vento

Se colhe chuva com o tempo

Se sabiamente se diz em Abril

Não sei se por sorte

Estranhamente água em funil

Já que me bateu bem forte

Olha se fossem notas de mil

Já se torna obsessivo

Em vez de espírito criativo

 

Entranhado está o vício

De escrever coisas d’ofício

Rimando ou não

Alinhado ou em confusão

É tamanho do correr

Não atinge qualquer ser

Mas se sofre do contágio

É como barco em naufrágio

Dali só para o estaleiro

Não tem outro paradeiro

 

Correr é como ir sem destino

É um prazer clandestino

Que da gente corta casaca

Nem que seja de ressaca

Parar é meio morrer

Para quem busca prazer

E cuidar a saúde escolhe

Seja ao sol ou se molhe

 

O outro meio

Deixar de comer

Como o burro do espanhol

Com a arca cheia de favas

Morreu de fome

Ao pôr do sol

 

Chova a cântaros ou faça sol

Terra batida ou piso mole

Entranhado está o bicho

Sem tomar algum capricho

Em cima da relva

Fugindo ao lixo

Não sei se loucura

Ou obsessão

Só sei que me molhei

Mas quando a vontade

Toma força de lei

Pode ser tempestade

Mas desistir eu não sei

 

Escrever é resistir

É não ter para onde ir

Sem se levar a caneta

Na peleja do dia a dia

É a nossa baioneta

Numa constante idolatria

 

Bem terrível é lutar

De forma desigual

É correr o olhar

À volta do caniçal

Fixar a vista no chão

Ver torvar a razão

Travar o passo repentino

Sem saber qual o destino

Daquelas criaturas expeditas

Umas tais hermafroditas

Que se cruzam em confusões

Trocam tripas esquisitas

Que me causam alucinações

Vê-los passar modo apressado

Sem olhar para o lado

E sem tomar qualquer cuidado

 

E no trânsito em contramão

Está lançada a confusão

Avançam centímetros a fio

Em tresloucado desafio

Com os cornos espetados

Como não liguei à rima

Não sei se ainda por cima

Serão cornos ou serão chifres

Não creio que decifres

O sexo do animal

A velocidade é tal

Que em caminhos distantes

O que é agora

O agora já foi antes

 

É estranho mas é espantoso

Mais parece

Injetado intravenoso

Na pele causa erupção

Uma perfeita obstinação

Será bactéria ou uma virose

Será do ar ou overdose

Ou influência do Trancão

 

E a corrida já vai longa

Como longa a novela

Em tudo o que à volta vejo

Onde este rio

Toma banho no Tejo

 

Correr e declamar

Na caminho para o mar

Não se quedam os encantos

Sonhar e correr à chuva

Quem contém as emoções

Nos aprazíveis recantos

Pelo Parque das Nações

 

LUMAVITO

06/04/2015

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publicado às 23:01

NATURALMENTE O SILÊNCIO

por avidarimar, em 14.04.15

Hoje as palavras esvoaçam pela cidade

Circulam altas e em pregão

Nas ruas há gente diferente

Na descoberta deste mundo agitado

As ruas estranham os dialetos atrapalhados

Hoje há gente nova na cidade

Vieram ter com os parentes

 

Hoje não há gente na aldeia

O som das pedras ecoa sem limite

E as águas do rio recitam alegremente

Os desvarios do vale cavado

 

O cão é dono da planície

E lá longe

O sino declama uma estrofe do poema

Hoje brilha o som metálico do espantalho

E o sibilar das velas do moinho

 

Evidentes

Só os limões amarelos de maduros

Carregados de acne facial

E o sol que vigia os movimentos

Da sombra das casas vazias

Nos quintais

 

Escuta a brisa ao som da arpa

As cordas rangem docemente

Atenta o som dos violinos

Nas árvores que se agitam

No largo da aldeia

Observa a orquestra sinfónica

Instalada no anfiteatro

Do sopé da serra

Na encosta virada a Sul

 

Cantarolar

Só aos pássaros compete

Na sinfonia do silêncio

 

LUMAVITO

05/04/2015

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publicado às 22:59

CAMINHANTE SOLITÁRIO

por avidarimar, em 14.04.15

Um sorriso de alívio

Uma breve caricia na face

O respirar fundo

Sinal de acalmia

Sintomas de um caminho

Desníveis acentuados

Com subidas escarpadas

Dificuldades assumidas

 

Por vezes

A mão escorrega na saliência da rocha

O pé escapa do apoio na reentrância

O corpo treme de susto

Estatela-se no socalco

Dois metros abaixo

Esfolado nos cotos da mão

As calças rasgadas no joelho

Cabeça zonza

De costas            ergue o corpo doído

Lentamente…

 

Estamos vivos

O pé mexe

A mão sangra um pouco

Não é importante

Importante é estarmos de pé

E caminharmos

Essencial é o prazer de viver

 

O percurso é irregular

Mas segue em frente

Não volta atrás

O cansaço acumula

Até perto da exaustão

 

Um medronho                 uma amora silvestre

Um qualquer outro fruto do mato

Encostado a uma qualquer árvore

Arbusto ou inclinação de pedra

Ou de terra

Suave e inconsciente    Desliza até ao chão

Sentado              desconcertado

Da sacola pendurada nas costas

Sorve um gole de água

Um olhar à sua volta

Tudo está mais longe    difuso

Percetível           só o movimento da forfolha

De ramo em ramo

Movimentos bruscos    repentinos

Difíceis de acompanhar

A vista tolda

O sol vai-se        O corpo cede

E o sono profundo instala-se

Por ali                   Num local ermo

Como se da sua casa se tratasse

 

Ali mesmo          brota um sonho

Que cresce em cada segundo

Lança-se a planar

Em registo supersónico

Sobrevoando as copas das árvores

Na encosta

E as que crescem frondosas

Junto ao riacho que desliza fluente

No vale que ergue perfilado

O aqueduto que outrora

Matava a sede à cidade

 

O corpo perde o peso

E flutua

Basta bater os braços alados

E impele subida vertiginosa

Até ao longínquo zénite

Do paraíso

Por ali se demora            e vagueia

Como falcão predador

Em círculos esvoaçantes

À procura de uma presa

Que lhe dê o alimento

 

Rapina                  fogo que aconchega a alma

Parte singela de resistência

Sobreviver ou sucumbir

O corpo ave levita

E assiste ao romper do sol

No oriente

 

Nova fase           desperta

Restabelecido da jornada

Ergue-se lenta

E compassadamente

Retoma a marcha

Pelos trilhos irregulares da serra

O meio mais aprazível

Bem longe do borburinho

 

LUMAVITO

15/04/04

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publicado às 22:55

POEIRA

por avidarimar, em 14.04.15

Nas pedras empoeiradas da calçada

O sol torna-se baço

Nas passadas lentas arrastadas

A rudeza da vida emerge lei

Na poeira solta do caminho

Os passos ficam marcados

Pela força agreste das botas cardadas

Um velho caminha sozinho

Irrompe por entre os silêncios estios

Talvez água

Decerto mágoa

Dor em movimento

Quem sabe        por quanto tempo…

 

LUMAVITO

15/04/03

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publicado às 22:54

MÁGICA PAUTA DE MÚSICA

por avidarimar, em 14.04.15

Pelas ruas da aldeia        Passo a passo    poste a poste

Caminha no silêncio da noite escura      Mensageira de luz

A pauta passa suspensa               no silêncio

Transporta a essência do aconchego

Para os corpos                  Corpos encolhidos          regelados

Para que na noite fria    O Inverno fique mais acolhedor

Quando revelar o milagre           ao ligar o interruptor

 

Poste a poste                    Passo a passo   

Por entre a penumbra da noite                               Construindo partitura

Carrega                notícias do mundo         devoção religiosa diversão e cultura    

Enche o ecran   de sete anos de RTP

Pelas ruas da aldeia        a pauta de música           Alimenta saber

Pela pauta          na povoação      chega o tempo de lazer

Emoção para quem a vê

 

Pelos caminhos empedrados da aldeia

Circula uma pauta de música                     que pensava retilínea

Por entre as linhas          À luz do dia

Saltitam os pássaros      em cadeia

Nas linhas de pauta        poisam casais de rolas

Loucamente      apaixonadas

Envolvidas na conquista               como em contos de fadas

 

Entre as linhas de pauta               Chilreiam notas encantadas

Arrulhar de um pombo                corteja a sua noiva

Por entre as linhas de pauta      Os raios de sol esbatem-se

Na estrada empoeirada da aldeia

Por entre as linhas do pentagrama

A vida flui como canto de sereia

 

As notas pulam soltas   Na pauta da aldeia

Clave de sol       oitavas                 dó ré mi               semicolcheia

Passarada em voo          pipilante

Meigas                 irrequietas         doces criaturas

Em mágica vida em grupo           comitiva ambulante

 

Por este roteiro                               de notas de música

À aldeia chegou mais vida          os putos boquiabertos

Os desenhos animados                               filmes de cowboys

Histórias de encantar                   

No alto destes postes                   corre a alegria

Que dá cor aos corpos solitários

Aos corações amargurados       de uma jornada difícil

Nas linhas desta pauta                 corre suspensa

Nova página de esperança

 

Talvez por estas linhas  chegue o fim do abandono

Talvez estes postes                        uniformemente              espaçados

Que soletram    em uníssono    “CAVAN -mil novecentos e sessenta e três”

Nos arranquem da solidão

Talvez estes postes                       apontem alguma vez

Para um céu mais risonho

Talvez esta pauta            cante a sonata

E o caminho do futuro                  deixe de ser mero sonho

 

LUMAVITO

03/04/2015

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publicado às 22:53

APENAS AS EMOÇÕES

por avidarimar, em 14.04.15

As emoções são como ferro incandescente

Apenas elas       toldam o ar em seu redor

Marcam fundo                 tudo o que tocam           como gado bravo

No rubor intenso flamejante    Ecoam no silêncio do tempo

Por vezes só a água as arrefece      

Por vezes…

 

LUMAVITO

02/04/2015

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publicado às 22:51

CERTO CERTINHO NÃO SEI

por avidarimar, em 14.04.15

No dia em que a certeza chegou

Com mais dúvidas fiquei

Sorri      E parado              Sonhei

No dia em que acordado

Fiquei   De incertezas    Enleado

 

Certo certinho O espanto Em redor

Das montanhas                Carregadas de emoção

Que bem cheiram a loucura

No meio de farta e rara beleza

Se encontra a paz que se procura

 

Certo certinho não é

E não sei bem como será

Se aquilo que mais acredito

Não toma forma de senso

Sem estar em permanente conflito

Certo certinho sem dúvida

O certo é que eu não sei

Se usando as armas leais

Nesta luta tão desigual

Alguma vez vencerei

 

LUMAVITO

29/03/2015

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publicado às 22:50

Pág. 1/5



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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