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ESPELHO MENTIROSO

por avidarimar, em 13.04.15

Depois de sulcar o alto mar do sono

Numa viagem atribulada

Agitada pela violência das ondas

Desta época de Outono

Em água tão profundas

Sinto a barcaça do lençol

Atracar precipitada

Ao cais do acordar

Encandeado

Pelo foco do farol

 

Desmesuradamente lento

Coloco pé em terra

Não encontro chinelo

O meu pijama cinzento

Amarrotado

Na forma de esquisso

Tento endireitá-lo

Meio branco meio amarelo

Arrasto-me descalço

Para a minha estação de serviço

Evitando qualquer percalço

 

Fico parvo de espanto

Estas imagens que capto

Frente ao impiedoso espelho

A figura que lá está

Com ela não me assemelho

Não me olha de frente

Se o empurrar

Que fará?

 

Ostenta aspeto miserável

Com figura de trambolho

Desconcertado

Caos no cabelo

Remela no canto do olho

Olheiras em triângulo escaleno

Empapuçado

 

Não, não sou eu…

Oh! Profunda dor

Até o estomago estremeceu

Não sou eu, não senhor

 

 

Num gesto pseudo buliçoso

Dá-me arrepios, aquele ser olhar

Tremo de perceber

Este aspeto cadaveroso

Longe não vai este mundo

Com gente desta

Mal-encarada

Que se arrasta sem de si assumir

Uma imagem desconcertada

Sem nada, mesmo nada

Que saiba produzir

 

Viro costas

Àquela triste figura

E rápido, volto a virar

Lá continua ela sem mexer

Nem sequer as bochechas opostas

Definhado com agrura

Nunca viu o alvorecer

 

Lesto, enfio as calças

Aperto a camisa

Salto para dentro dos sapatos

Preparo-me para outras andanças

Sem grandes aparatos

Sem uma vontade precisa

 

Afasto a cortina

E olho pela janela

O mundo gira sôfrego

Tal a fumarada

E numa lentíssima corrida

Persigo o autocarro

Que me acolhe

Como sardinha enlatada

 

Atiro-me para a casa da roleta

Mais perto da porta

Da chamada “economia”

A montra do supérfluo

A mentira do dia-a-dia

Que deixa a alma partida

E com toda a subtileza

Deste casino da vida

Cada pessoa um objeto

O poder do faz de conta

E o mérito da esperteza

 

E assim volto a casa

Mascarado de audaz

Até parece que realizado

Como grande rapaz

Por não saber que fazer

Para dar volta a este fado

Fico-me à porta

De mão e pé atado

 

Procuro o que me conforta

Sem me lembrar nesta paragem

Que na próxima madrugada

Meio viva meio morta

Encontrarei nova personagem

Junto do estranho espelho

De face enjoada

Que sem me fitar

Só me mostra o que é velho

 

LUMAVITO

20/10/2014

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publicado às 23:18



Pretendo abordar diversos temas da vida de um país, em claro desespero de sintonia entre governados e governantes. A forma pretende ser a poesia, com mais preocupação pelo conteúdo da mensagem que pela forma de estilo.

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